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Jorge Marrão 10 de Dezembro de 2012 às 23:30

Carta a um desempregado

Há alguma sociedade que se oponha à criação do emprego para poder alimentar a sua família e à manutenção de salários elevados? Sugiro que sigamos a máxima de Umberto Eco. Nunca assinou uma petição contra a fome, sida, ou a favor da paz, porque é impossível um ser humano, no seu perfeito juízo, defender o contrário.

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A autêntica crise é a sua como desempregado. A dos empregados é sempre relativa. Já nem se lembram que, há alguns anos atrás, viviam com menos. Este momento deve ser, agora no tempo da solidariedade natalícia, dos piores da sua vida. 


A fileira de desempregados, que todos os dias se engrossa em Portugal e na Europa, cria uma sombria rede social a que pertence, onde brotam os mais variados espíritos: conformados, desiludidos, alienados, ansiosos, alguns com esperança, e ainda outros revoltados com esta condição.

Os solidários da unanimidade superficial, vivendo com excesso de certezas, e imediatez de análise, caluniam todos os governos por esta situação. Afirmam que estes têm os instrumentos para a resolver. Mas, o desemprego de longa duração não tem uma única causa, nem uma única solução.

Há alguma sociedade que se oponha à criação do emprego para poder alimentar a sua família e à manutenção de salários elevados? Sugiro que sigamos a máxima de Umberto Eco. Nunca assinou uma petição contra a fome, sida, ou a favor da paz, porque é impossível um ser humano, no seu perfeito juízo, defender o contrário.

Contudo, o egoísmo dos empregados, que preferem garantir o que têm, a mudarem a sua percepção da realidade, que se lhes há-de impor, é também uma das razões para que se encontre afastado da nobre tarefa que é o trabalho.

Há menos de uma década, antes desta crise mundial, houve uma promessa de serem criados 150 mil postos de trabalho em Portugal por um governo do Partido Socialista. Não o foi capaz de fazer. O actual Governo, mergulhado neste adverso contexto, também não consegue diminuir a taxa de desemprego. Na relação entre governos e a sociedade, não se esqueça: votam sempre mais empregados que desempregados.

Ouvirá um coro habitual que repete ocamente as palavras emprego e salários a sustentar que são precisas "políticas", e que não aguentamos mais redução de bem-estar. Apresentam-se moralmente superiores mas, na essência, são natural e ferozmente calculistas. A uma falência económica seguem-se uma moral e social. Ao fabricar-se um salário desajustado da produtividade comparativa, e um emprego artificial, a probabilidade de o atirarem para o desemprego cresce. Omitem também que a sua família terá de suportar, por essa razão, mais impostos para o afastar do desemprego.

O cinismo social romper-se-ia com um decreto-lei do tipo soviético: o governo legislava que não podia haver desemprego em Portugal. Isto é, todos os desempregados a partir do Ano Novo estariam empregados. Mas, quem lhes pagava? Cada um de nós seria obrigado a repartir o salário actual com os mais de 16% de desempregados. Em termos simplistas, o ajustamento abrupto dos salários asseguraria o emprego a todos. A opinião ritualizada dos direitos afirmará que os salários são intocáveis.

Quanto mais informação económica é produzida, fazendo em cada cidadão um economista em potência, menos suspeitas surgem sobre estas falsas unanimidades esclarecedoras. Opinamos sobre a opinião da opinião da opinião desembocando numa opacidade, paradoxalmente simplista, das coisas complexas.

A direita e a esquerda separam-se em inúmeras matérias, como nesta: aquela aceita o mundo como é, e tenta torná-lo mais eficiente; esta rejeita-o e vive fora dele, buscando muitas das vezes a construção de castelos que, mais tarde, descobrimos sem fundações. Todavia, é necessário um novo consenso sobre o contrato social que celebrámos. Enquanto a sociedade não despertar deste persistente equívoco, não desista. Aceite os minguados empregos, salários e desafios que esta lhe tem para lhe oferecer.

Mas, a desigualdade e injustiça de redução de bem-estar dos empregados não pode ser maior (somos mais!) do que você estar sem trabalho. Muitas das vezes as coisas não costumam ser o que parecem.

* Gestor

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