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Jorge Marrão 28 de Maio de 2012 às 23:30

Conveniências

Em vez de fazermos perguntas genuínas sobre como atravessar esta crise, unirmo-nos para a ultrapassar, não brincar com os consensos, para inglês ver, aquando das visitas da "troika", promovemos mais o justicialismo de nomear os pretensos culpados do que a entendê-la para preparar o futuro.

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Aristóteles propunha que a moeda fosse estável por 20 gerações, para que cada um soubesse o valor da vida que iria viver e a que passaria para os seus herdeiros. Quando da integração, a Europa esqueceu-se de explicar às regiões mais pobres da Europa que a moeda única não significa harmonização de rendimentos. Em pouco tempo, desconfiamos do valor do euro. A Grécia e Portugal negaram a sua situação precária até à rendição. A Espanha apresentar-se-á de "rodillas" perante a realidade. Não toleramos da Alemanha o seu menosprezo pela nossa incúria económica, mas resignamo-nos, apesar de termos a mesma moeda, que o Alentejo e o Algarve sejam mais pobres que a Região de Lisboa.

As conveniências proliferam pela sociedade portuguesa. Um jornalista questiona o seu entrevistado: - "não acha que estamos a atingir o limite máximo da austeridade"? Dá vontade de lhe proporcionar uma viagem por África e/ou pela Ásia para que entenda as fronteiras da austeridade. A proposta de emigração dentro do espaço europeu é indigna, mas convivemos bem com a desertificação do interior português; escandalizamo-nos também com as políticas que nos querem impor de responsabilidade fiscal, instituições e comportamentos dos países vitoriosos desta 1.ª união monetária, mas matamos o mensageiro que nos incita à mudança.

Se quisermos progredir, vamos ter de engolir uma nova ditadura: a das instituições europeias e das suas políticas, que se irão transfigurar rapidamente. A solidariedade europeia vai ser proporcional à que temos nas regiões portuguesas: a suficiente para não haver divisão ou revolta permanente nas diferentes regiões.

A democracia representativa actual gerou politiqueiros obcecados com as vozes, e as opiniões gerais, tendo-se tornado actores que simbolizam o que o povo pensa e aceita, ao invés de julgarem por si qual a melhor decisão. A direita não é direita: no poder esquece que impostos são incentivos para menos trabalho, menos poupança e menos investimento. Quer agora fazer política social através do sistema financeiro e da iniciativa privada. A esquerda busca novas vias, sabendo que não há almoços grátis, e que não vai conseguir manter as clientelas dos últimos anos. Navegam à vista. O quarto poder agigantou-se. Capturou a elite política, mas promove um vazio, porque se viciou nas agendas simuladas das elites que não querem mudar, e num escrutínio mesquinho inconsequente.

Gastamos energias em encontrar o responsável pelo estado das coisas, eternizamos julgamentos dos protagonistas, queremos corrigir os erros colectivos na barra dos tribunais e perdemos tempo com os pequenos escândalos desta sociedade circular nos seus protagonistas e nas suas ideias.

Os mercados agora são vilões e sabotadores: quando floresciam, a vida era abundante; quando decaem, estamos a dois passos do fim. Ainda não percebemos a relevância deste aviso que é o embargo financeiro. O que tem de ser mudado, não vê a mudança.

Há um atordoamento geral que atrasa definitivamente o processo de reconstrução nacional. Nesta crise, são as políticas de reconstrução nacional consensualizadas que nos podem tirar deste aterro económico e social.

Se Mandela quando saiu da prisão se tivesse dedicado a refazer e a corrigir a história, teria tido um grande apoio dos seus correligionários, mas não teria conquistado o futuro. Em vez de fazermos perguntas genuínas sobre como atravessar esta crise, unirmo-nos para a ultrapassar, não brincar com os consensos, para inglês ver, aquando das visitas da "troika", promovemos mais o justicialismo de nomear os pretensos culpados do que a entendê-la para preparar o futuro. Submergimos lentamente, mas excitamo-nos por saber quem tem de ir primeiro ao fundo neste oceano do desaire. Como dizia um célebre economista: encontrámos o inimigo, somos nós. As elites não têm espelho.
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