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Jorge Marrão 27 de Abril de 2020 às 19:50

Crispação escondida

O pensamento sobre a reconstrução do país é adiado. Os que evitam falar nesta colocam-se na trincheira de que a "guerra" ainda não terminou. E não. Não nos deve impedir, todavia, de refletir sobre o que aí vem. 

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A FRASE... 

 

"Evocar o 25 de Abril é falar deste tempo, não é ignorá-lo." 

 

Marcelo Rebelo de Sousa, Público, 26 de Abril de 2020

 

A ANÁLISE...

 

No seu discurso unificador na controversa cerimónia de Abril, o Presidente da República recordou que ele e o deputado Jerónimo de Sousa estavam na Assembleia Constituinte, fazendo assim um arco que lhe interessa, e serviu-se da presença de Ramalho Eanes, um dos grandes vencedores de Abril, para se escapulir a uma detalhada revelação dos problemas económicos e sociais com que nos vamos defrontar nas próximas duas décadas, ou seja, o caminho da servidão. Hoje, estou de acordo que um único mandato presidencial de sete anos seria, pelo menos, diferente. O regime semipresidencial devia ser, pelo menos, inquietante o suficiente para nos obrigar a um mais apurado escrutínio da atuação governamental.

 

A democracia incita-nos à paixão pela liberdade e pela diversidade de ideias e soluções. A crispação entre os órgãos de soberania, e na sociedade, são omitidas em benefício de aliviar a crise, mas também pelas estratégias eleitorais e uma afirmação institucional una perante a Europa indecisa. As oposições, sem acesso aos instrumentos de poder, e reféns de uma estratégia bem articulada de acusação de antipatriotismo, estão desarmadas, e sabem que vão ser chamadas a contribuir para a solução. É nesse momento que a crispação emerge das profundezas. Surge assim a crise das lideranças e do regime. Há uma divisão na sociedade que não se quer revelar: o que o Estado vai fazer e como vai usar os meios que lhe forem colocados à disposição pela Europa, que esperemos seja solidária, pelos mercados financeiros, pelos contribuintes e pelos bancos. A esquerda radical já revelou ao que vai: um intervencionismo estatal sem precedentes, a fragilização das empresas e dos empresários e as limitações da liberdade dos cidadãos, se isso lhes convier para a agenda.

 

Teria sido útil rememorar o período decorrido entre abril de 1974 e novembro de 1975. O permanente foco no espaço público nas tecnicidades epidemiológicas desta pandemia pode fazer-nos crer que só temos o problema da crise sanitária por resolver. O pensamento sobre a reconstrução do país é adiado. Os que evitam falar nesta colocam-se na trincheira de que a "guerra" ainda não terminou. E não. Não nos deve impedir, todavia, de refletir sobre o que aí vem. 

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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