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Jorge Marrão 19 de Novembro de 2020 às 09:40

Iliberalismo e crispações

A Iniciativa Liberal e o Chega são uma consequência das saídas de Passos Coelho e Paulo Portas. Os situacionistas não gostam. Preferiam o velho arco de governação, mas foram os partidos à direita que não responderam às sensibilidades liberais, às causas nacionalistas e às populistas.

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A FRASE...

 

"A culpa da extrema-direita não é da esquerda."

Maria João Marques, Público, 18 de Novembro de 2020

 

A ANÁLISE...

 

A democracia popular, i.e., a que não se reforma, é a semente da democracia populista. Sem um debate livre na esfera pública para persuadir os eleitorados a aceitarem mudanças, a democracia parlamentar é um processo inconsequente. Torna-se simplesmente num ritual eleitoral e de rivalidade ideológica. A fragmentação do espaço político para alguns é uma responsabilidade do "outro". E as escolhas do "outro" têm limites. A militância das profecias do paraíso, a das linhas fraturantes, e a das certezas, das injustiças e desigualdades, está incomodada com os novos "agitadores". "They are gone to far" foi um aviso que as esquerdas não escutaram.

 

O Bloco de Esquerda, há décadas, abanou o edifício das esquerdas, criou eleitorados, e nem por isso a democracia ficou mais pobre. As esquerdas enriqueceram com a sua diversidade parlamentar. Todavia, o país nunca mais será como outrora depois da bancarrota e da vinda da troika. É bom relembrar o enxovalho permanente que as esquerdas fizeram à coligação PSD/CDS, e a mudança da liderança de António José Seguro para António Costa, para lermos em perspetiva este ataque a Rui Rio pela sua deriva açoriana. Este era maldito para umas direitas e medianamente respeitável para as esquerdas. Hoje não serve. A Europa de 2011 não é a de 2020; o PS de 2020 não é o PS de Soares da Alameda, nem o PCP o da revolução, nem o BE virtuoso da oposição permanente ao PS.

 

A Iniciativa Liberal e o Chega são uma consequência das saídas de Passos Coelho e Paulo Portas. Os situacionistas não gostam. Preferiam o velho arco de governação, mas foram os partidos à direita que não responderam às sensibilidades liberais, às causas nacionalistas e às populistas. É natural que o debate agora se tenha de realizar dentro do PSD e CDS, mais tarde no PS, sobre os seus desvios às linhas matriciais. A política, em democracia, é e será sempre uma luta de mundivisões distintas, e é saudável "per si". Não transformemos é a democracia liberal em iliberal, como acontece na esfera pública com a criação de novos guetos, iniciados aceites e proscritos, tão-só porque não aceitamos que o mundo que conhecemos desapareceu. 

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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