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Jorge Marrão - Gestor 23 de Julho de 2012 às 23:30

Ilusão governativa

Para pôr o País a crescer, gerar emprego e ser mais justo, seria prudente obrigar grande parte dos políticos, juízes, padres, e jornalistas a saberem mais de economia e menos de justiça. Talvez assim tivéssemos mais justiça e dignidade para todos

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O direito ao protesto e à indignação estão distribuídos de forma iníqua entre os trabalhadores do sector privado e os do público. Estes são protegidos pela Constituição. Aos outros, aplica-se cada vez mais a regra de mobilidade e da retribuição assente na produtividade, se quiserem manter o seu emprego. Infortunadamente esta adaptação quase obrigatória pode ser dolorosa para muitos.

Uma economia que não cresce é por natureza injusta. Cria um castigo severo para os trabalhadores. A sua dignidade como indivíduos é subjugada pela carência de alternativas. Simultaneamente, sabemos que, em economia, esta instabilidade social produzida pelos mercados permite o ajustamento económico e a sua progressão.

O funcionamento dos mercados do trabalho é pois intuitivamente mau para as pessoas. Se a este caldo, juntarmos a ideia dos lucros, insistentemente propalada pelos pseudo-equitativos, como a causa das injustiças sociais mais gritantes, a refeição anti-mercado é pois um best-seller nacional. Acresce uma cultura mediática que esgaravata em minúcia a equidade social, centrada na ideia dos mercados como absolutamente injustos.

A lei fundamental do País tem de ser respeitada. Mas, a harmonia entre a economia dominante e o regime constitucional, que privilegia afinal a segurança para uns e o risco para outros, origina uma dualidade económica insuportável a prazo. Em resultado da natureza da função, os médicos, juízes, enfermeiros, e professores, por exemplo, apresentam-se em geral como os primeiros protectores do bem comum.

Há, no entanto, uma hipocrisia dos "estatistas" para defender os seus naturais interesses como pessoas. Para legitimar uma lógica pseudo-ética superior para suportarmos ainda mais carga fiscal, os médicos e enfermeiros asseguram que estão sempre preocupados com os doentes, os professores com os alunos, os juízes com os desprotegidos, e as empresas do regime com o desenvolvimento económico. E assim deve ser.

No entanto, manipula-se o desabrigado trabalhador fabril ou agrícola com emoções. Insiste-se nos prováveis efeitos das falhas do sistema de saúde, educação e justiça, e nos desvarios do implacável capitalismo de casino que cria novos sofredores, mas raramente se refere os seus próprios interesses remuneratórios e na estabilidade do seu emprego.

Esquecemos frequentemente que o que pagamos em impostos vai parar aos bolsos de alguém. Por coincidência, daqueles que asseguram que nos estão a defender dos males do mundo, numa atitude liberal paternalista e nobre porque promove o Estado social! Mas, este não pode ser determinado em abstracto. A sua qualidade deve ser fruto da capacidade em alimentá-lo. A economia privada contribui para o bem público ao fornecer os recursos para sustentar o Estado social.

Paradoxalmente o sector público têm vindo a perder prestígio, e os seus funcionários rendimentos, no momento em que mais precisamos de instituições de elite e servidores mais motivados. Resulta em parte do miserabilismo subjacente à remuneração dos órgãos de soberania e uma política salarial na Administração Pública frustrante. O político e o servidor público são também "homo economicus". Esta espiral demagógica salarial contraditória é desastrosa.

Todavia, o protesto hoje é um privilégio dos que têm o emprego e salário garantido pela lei suprema do País. É uma afronta nos dias de hoje para os trabalhadores no sector privado. Estes têm de se remeter ao silêncio. Sob uma magnânima capa da busca do bem público, acaba-se assim por transferir o problema para toda a sociedade.

Percebe-se assim que os ministros a abater serão sempre os mais reformistas: aqueles que querem garantir mais Estado social com menos recursos extraídos do sector privado. Na gíria predominante são os economicistas. Baralhamos os fins do Estado social, que todos queremos, com o volume de meios, que beneficiam apenas alguns de nós.

Há uma perversa confusão entre a justificação do Estado social e os interesses próprios das redes reivindicativas dos funcionários públicos. Sempre ostentados como limites saudáveis da democracia, sobejam poderes e contra poderes construídos na esfera e dependência do Estado, cujo funcionamento produz uma ilusão governativa. Apenas uma maioria política clarividente alargada à esquerda e direita pode acabar com esta fraude governativa.

Para pôr o País a crescer, gerar emprego e ser mais justo, seria prudente obrigar grande parte dos políticos, juízes, padres, e jornalistas a saberem mais de economia e menos de justiça. Talvez assim tivéssemos mais justiça e dignidade para todos.

*Gestor



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