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Jorge Marrão - Gestor 27 de Fevereiro de 2012 às 23:30

Ocupação financeira

Com as quezílias partidárias e mediatismo egocêntrico dos líderes, não desaguaremos numa solução que nos proteja. Não consigo vislumbrar forma de o fazer sem sabedoria, inteligência e um imprescindível compromisso político alargado.

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Para benefício das novas gerações, devíamos gravar na pedra a data de início desta ocupação financeira da "troika" com um espaço em branco para a data do fim. Entretanto, faríamos umas placas com a tradicional comunicação: "Estamos em obras para melhorar o seu bem-estar. Lamentamos o incómodo. Prometemos ser breves".

Enquanto não chegar o dia de libertação, isto é os mercados acreditarem em nós, as decisões colectivas relevantes, para o próximo futuro, dependem da aceitação da "troika" e da forma como o mundo nos observa.

Os três partidos do arco do poder que foram obrigados a assinar este memorando histórico e o País não se devem esquecer que as consequências de perda de crédito são sempre um conjunto de condições impostas ao País, e não a um Governo. Deviam também recordar-se, quando debaterem o futuro, que a arquitectura da democracia europeia e portuguesa não foi capaz de gerar instituições e actores suficientemente poderosos e independentes que obstassem a este desvario.

A escala de dependência externa é cada vez maior: os bancos estão a depender do Banco Central Europeu e da capacidade de atrair capital externo accionista; o sector privado empresarial vislumbra a salvação na orientação externa. As pessoas, sem oportunidades, olham para o mundo como o seu escape geracional. Para alguns, o mundo é a raiz dos nossos problemas e não nos compreende; para outros, é a oportunidade a explorar.

Quem quiser a meio do percurso enjeitar ou desligar-se do compromisso assumido, e desta ajuda preciosa, não pode esquecer que o volume de dívida actual a estas instituições tolhe-nos o caminho. Os casos gregos e italiano denunciam uma nova fonte de poder político: foram impostos primeiros-ministros e restrições cada vez maiores à liberdade económica, mais que proporcionais ao agitar colectivo mediático. A afronta financeira parece que cresce com a movimentação política e social.

A independência política tem de se assegurar com autonomia financeira. Os políticos das oposições dos diferentes países, sujeitos a esta nova vigilância, dão por vezes ideia que ainda não entenderam que, por mais que vociferam, com ou sem razão, estão sujeitos aos mesmos ditames. Sempre podem argumentar que fariam e negociariam melhor. Enquanto acalmam o partido, agitam hostes e alienam o País, podem enterrar o futuro. Todos os próximos acordos de credores vão ser assinados pelos Governos e oposições, quer queiram ou não, pois exigem alterações profundas e alargadas dos modelos e práticas políticas, económicas e sociais.

O modelo de incentivos destes novos credores é evidente: serem pagos o mais rapidamente possível, sem perda alguma, e com as ditas reformas estruturais concretizadas, condição necessária para transferirem o risco para os mercados financeiros. Não vale a pena acusar a "troika" de que não vamos crescer por sua responsabilidade. Não o tivemos antes da sua chegada. Sem austeridade não liquidamos as dívidas. Sem crescimento os credores recebem mais tarde.

Os Governos e oposições devem habilmente promover o nosso modelo de incentivos: acordar um plano de serviço de dívida não asfixiante da sociedade, executar rapidamente as reformas e tudo fazer para termos a liberdade financeira que os mercados nos proporcionam.

A dureza negocial das instituições da assistência é proporcional à dependência financeira. Talvez fosse útil, pensarmos no dia de libertação. E já agora como o vamos fazer. Com as quezílias partidárias e mediatismo egocêntrico dos líderes, não desaguaremos numa solução que nos proteja. Não consigo vislumbrar forma de o fazer sem sabedoria, inteligência e um imprescindível compromisso político alargado.



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