Jorge Marrão
Jorge Marrão 08 de outubro de 2018 às 19:42

Política e processos judiciais

A vida económica está no fio da navalha e as oportunidades de crescimento salarial serão apenas de décimas nos próximos tempos. A ordem vai ter de surgir, sob pena de se cingir a democracia apenas a eleições livres.

A FRASE...

 

"O Presidente da República disse que não comentava as palavras de Cavaco Silva sobre a nomeação da nova procuradora-geral da República. Mas, ainda que indirectamente, comentou e de forma muito dura."

 

Público, 28 de Setembro de 2018

 

A ANÁLISE...

 

A troca de galhardetes entre Presidentes da República não foi, e não é, de menor importância. Por trás da civilidade das palavras esconde-se uma profunda divergência sobre a leitura do incumprimento de Portugal com os seus credores em 2011. Se o regime político não foi capaz de fazer a denúncia apropriada, nem autorregenerar-se na sequência da entrada da troika, o poder judicial destapou - ainda que com lentidão processual, que manifestamente condena socialmente os arguidos no seu bom nome, sem possibilidade de defesa a tempo - o que se estava a passar nas esferas do sistema político, bancário e empresarial, e as diversas conexões legítimas ou não, entre estes sistemas.

 

Não foi por acaso que os atores à época da troika (Cavaco Silva e Passos Coelho) se manifestaram perante o afastamento da procuradora: provavelmente descobriram o que se passou no interior do regime com uma notável ajuda de Joana Marques Vidal. A chegada de juízes à política nunca deu bons resultados nos lugarejos em que ocorreu. A intromissão de poderes que deviam estar separados ou a falsa separação dos mesmos minam lentamente a confiança dos cidadãos na democracia. Passos Coelho e Cavaco Silva não são provavelmente os D. Sebastiões ou os Ordeiros ditatoriais que o povo português sempre almeja que existam, quando se vê traído pelas elites do regime em vigor. Em formatos diferentes, estão a alertar-nos, com o indireto apoio judicial, que o regime não foi convenientemente julgado no tribunal político.

 

À esquerda e direita, percebemos que não somos uma democracia com rumo evidente, que é frágil institucionalmente, e corrompida por pequenos e grande favores, recheada de atores a quem os media dão protagonismo, cujas honorabilidades saem feridas por desgaste mediático e judicial. Acresce que a vida económica está no fio da navalha e as oportunidades de crescimento salarial serão apenas de décimas nos próximos tempos. A ordem vai ter de surgir, sob pena de se cingir a democracia apenas a eleições livres.

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

pub

Marketing Automation certified by E-GOI