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Jorge Marrão - Gestor 20 de Maio de 2021 às 09:20

Porquê reconstrução?

Os que quiserem regressar ao passado não reconstroem, apenas recuperam tempo, instigando uma maior polarização da sociedade. Não se queixem depois com o mau funcionamento da democracia.

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A FRASE...

 

"A ‘reconstrução’ segundo Marcelo Rebelo de Sousa."

Manuel Carvalho, Público, 14 de Maio de 2021 

 

A ANÁLISE...

 

O Presidente da República prefere a expressão "reconstrução" à de "recuperação". Aquela pressupõe uma ideia de destruição. Esta de retorno à normalidade. E estamos em presença de uma devastação económica, social e/ou política, ou de uma anormalidade efémera? Como se resolvem as crises políticas subjacentes a uma destruição? O atual regime democrático não nos traz esperança luminosa, nem ambição mobilizadora.

 

O apodrecimento institucional, coletivo e das elites de outrora - ou estão a levar com um despacho de pronúncia, ou julgamento, ou comissão de inquérito parlamentar ou escândalo mediático - instilou na sociedade uma descrença profunda sobre o regular funcionamento da democracia, das suas instituições e das pessoas de referência, ou seja, da oligarquia do poder. Não cabe dentro do regular funcionamento das instituições que a sociedade tenha sucesso económico e progresso social permanentes. A Constituição não proibiu os défices, nem a dívida. Não tendo a política criado um modelo de restrições, levou-nos para o caminho da perda da soberania, do agravamento da dependência com o exterior e da extração fiscal sem precedentes. Este regime já não é de esperança: é uma apreensão e uma resignação coletivas que preenchem os debates, as conversas, as tertúlias, a opinião pública e a privada. Parece paradoxal reconstruir seja o que for com armas, sejam bazucas ou não; a reconstrução pressupõe uma lavra diferente do terreno social e económico e novas sementes.

 

O período pós-troika foi entendido pelas forças de esquerda, as anti-Europa, e as descrentes do mercado e da iniciativa privada, que poderíamos voltar aos anos dourados da redistribuição de rendimento com dívida pública e privada, sem consequências no regime político. Os regimes constitucionais pluralistas corrompem-se pelos excessos da oligarquia do poder, ou por excesso demagógico, ou pelo tempo e usura, como defendia Aron. A autodestruição democrática é notória. Quem te avisa teu amigo é. O PR avisou-nos. A matriz da Europa e a da Liberdade serão os elementos agregadores das alternativas à direita, e também provavelmente às da esquerda. Os que quiserem regressar ao passado não reconstroem, apenas recuperam tempo, instigando uma maior polarização da sociedade. Não se queixem depois com o mau funcionamento da democracia.

 

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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