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José M. Brandão de Brito 02 de Agosto de 2013 às 00:01

Quanto pior… melhor

A elevada liquidez à disposição das empresas implica que, num contexto de magro crescimento económico e de escassas oportunidades de investimento, as empresas optem por incrementar os dividendos pagos aos acionistas, aumentando o retorno imediato para os acionistas.

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Quando hoje for divulgado o relatório do emprego dos EUA, de que constam a evolução do emprego, dos salários e da taxa de desemprego, podemos estar certos que a comunidade dos investidores e analistas estará em peso defronte aos seus terminais de informação escrutinando até ao mais ínfimo detalhe o conteúdo do famigerado relatório. O caso não é para menos; trata-se do mais importante conjunto de indicadores da maior economia mundial. Em circunstâncias normais, uma melhoria da situação do mercado de trabalho dos EUA, especialmente se inesperada, seria brindada com fortes valorizações dos índices acionistas e subida das taxas de juro. Mas estes não são tempos normais.


Desde março 2009 que a Reserva Federal norte-americana (Fed) tem vindo a prosseguir uma política – conhecida por "quantitative easing" (QE) - de injeção massiva de liquidez no sistema financeiro através da aquisição de títulos de dívida pública e privada. O objetivo proclamado pelo banco central é o de manter as taxas de juro de mercado baixas e assim incentivar o investimento e o consumo. Acontece que, pese embora a sua monumental escala, o programa de compra de dívida está a produzir resultados paupérrimos, a avaliar pelo baixo ritmo de expansão do PIB real (abaixo de 2%) e pelo lento crescimento do emprego. Nestas circunstâncias seria de prever desempenhos modestos, ou mesmo negativos, dos mercados acionistas. Porém, o oposto acontece. Nas últimas semanas, o principal índice acionista americano – S&P 500 – tem vindo a estabelecer consecutivos máximos históricos, situando-se mais de 250% acima do nível registado há cerca de quatro anos atrás. A razão: o QE.

O efeito que o QE exerce sobre as ações opera sobre várias vertentes. Primeiro, a liquidez excedentária recebida pelo sistema financeiro por via do QE é repartida entre as várias classes de ativos, incluindo naturalmente as ações. Segundo, o nível irrisório das taxas de juro – para o qual o QE certamente contribui - torna menos apelativos os depósitos bancários e equiparados, incentivando a procura por instrumentos de maior risco, como as ações. Terceiro, a elevada liquidez à disposição das empresas implica que, num contexto de magro crescimento económico e de escassas oportunidades de investimento, as empresas optem por incrementar os dividendos pagos aos acionistas, aumentando o retorno imediato para os acionistas, ainda que em detrimento da rentabilidade futura que só o investimento novo poderia trazer. Tudo isto favorece a aquisição massiva de ações e a sua consequente valorização.

Por enquanto, nos mercados acionistas vai vingando o paradigma de quanto pior… melhor.

Desta "nova normalidade" nasce uma terrível perversão infundida pela natureza distorcedora do QE: como a Fed se comprometeu a manter esse instrumento de política monetária enquanto o estado da economia continuar a inspirar cuidados, os investidores vão estar a "torcer" para que o emprego caia, a taxa de desemprego suba (e outras desgraças de igual calibre), pois essa é a melhor garantia de que as suas ações se continuarão a valorizar. Pouco importa a tibieza da economia dos EUA, a falência da edilidade de Detroit – outrora a cidade mais rica dos EUA -, a recessão na área do euro, o dramático arrefecimento dos BRIC, os elevados níveis do preço do petróleo ou a instabilidade no Médio Oriente.

Perante a profusão de riscos para a economia global, a lógica ditaria desempenhos mais moderados dos mercados acionistas. Para desafiar esta lógica, contudo, basta acreditar que se a política monetária for suficientemente criativa, tudo correrá pelo melhor. É que, como disse Einstein, a lógica leva-nos de A a Z, a imaginação leva-nos onde quisermos. Uma coisa só é necessária: que a economia se mantenha débil.

É duvidoso que este macabro sonho não acabe em sobressalto, mas por enquanto, nos mercados acionistas vai vingando o paradigma de quanto pior… melhor.

Chief economist do Millenniumbcp
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Este artigo de opinião foi escrito de acordo com o novo Acordo Ortográfico

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