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José Maria Brandão de Brito 03 de Julho de 2013 às 00:01

A lenta decadência europeia

Que haja então coragem para avançar, criando o que for de criar, demolindo o que for necessário, sacrificando o que o Mundo em que vivemos nos exija sacrificar. Em nome da preservação do que é essencial, da recuperação da dignidade, do prestígio e dos proveitos perdidos, agora em novas e peculiares condições.

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Nós, europeus não podemos assistir indiferentes à decadência da Europa, nossa casa e nosso mundo.


A Europa tem vindo a lidar mal com os preocupantes sinais da sua própria decadência que hoje, depois de a França também ter entrado em recessão, está escancaradamente à vista de todos.

A decadência da Europa não é, portanto, uma coisa fantasiada construída por lunáticos pessimistas; é um facto real de que todos falam em voz baixa temendo despertar (ainda mais) os demónios dos nacionalismos e acirrar as pequenas e grandes querelas entre os Estados-membros. Pelo contrário é um facto real que alguns liberais conservadores, com a melhor das intenções, têm vindo a aprofundar. Está à vista o acerto da consigna de que ‘mercados só precisam que os deixem funcionar livremente’ e que ‘só a ideologia liberal é conforme com a ordem natural’...

Talvez a questão mais dura e mais difícil, a escolha mais dolorosa, seja a de saber quem pode e quer genuinamente continuar e em que condições, a construção iniciada há pouco mais de meio século.

A decadência da Europa, porque é disso que definitivamente se trata, só pode ser superada e resolvida com um corajoso golpe de coragem e humildade, por quem por estes tempos está à frente dos seus destinos, que abarque todos os azimutes económicos, sociais, demográficos e culturais e ponha fim a esta forma inconsequente e mesquinha de lidar com o problema.

Que se refaçam os tratados, se modifiquem as regras, se actualizem os valores, se induza a alteração dos comportamentos nacionais e individuais. A UE, a barca da UE, a nossa arca de Noé, está a meter água e corre o risco de se afundar e de nos levar a todos se não nos convencermos que só em conjunto nos poderemos salvar.

As soluções/tentações individuais são completamente ineficazes no quadro da globalização. Neste contexto, os nossos adversários, os amigos, os concorrentes, os competidores levam-nos ao tapete inexorável e impiedosamente.

Comecemos pela UEM, nossa principal e fundamental conquista. Que precisamos para que ela funcione plenamente? Que é necessário para que não se pareça com um doente a ter de ser constantemente sujeito a cuidados intensivos? De um fundo europeu de estabilidade dotado dos meios necessários para poder exercer as suas funções? De um BCE com uns estatutos mais adequados às funções de banco emissor? De uma união bancária? Do reforço dos instrumentos de governação política da União? De uma consistente harmonização fiscal? De tudo, de outros instrumentos? Todos os esforços valem a pena para tirarem milhões de europeus desta inconcebível situação para que foram arrastados, humilhados na sua dignidade de cidadãos. ‘Pobres, mas honrados’: ao menos que sobre esse empobrecimento se esteja a construir um futuro onde volte a haver democracia e ressurjam as liberdades agora sequestradas.

Pois que haja então coragem para avançar, criando o que for de criar, demolindo o que for necessário, sacrificando o que o Mundo em que vivemos nos exija sacrificar. Em nome da preservação do que é essencial, da recuperação da dignidade, do prestígio e dos proveitos perdidos, agora em novas e peculiares condições.

Só assim se conseguirá encontrar utilidade e fará sentido esta dose inumana de sacrifícios impostos e este roteiro de empobrecimento que mais de metade da Europa está a ser forçada a percorrer. Quanto será preciso falhar para se perceber como falharam estas políticas ditas de austeridade. Será necessário que o clima recessivo se instale duradouramente em toda a orla Sul da Europa, que a sempre exemplar Irlanda entre de novo em recessão, para se compreender que os frutos da austeridade são a dimensão do seu fracasso? Quando se acordará para a realidade de que na Eurozona apenas a Alemanha é neste quadro, por enquanto, a única excepção?

PS: na altura em que este artigo foi escrito ainda não era conhecida a demissão de Vítor Gaspar.

Economista. Professor do ISEG/UTL

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