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José Maria Brandão de Brito - Economista 10 de Dezembro de 2014 às 18:36

Mario Draghi

Há pouco tempo, durante um debate acerca da situação actual da integração europeia, sobre este presente de grandes dúvidas e perplexidades e o futuro previsível, quando se falava da ideia original que esteve na base dos tratados de Paris (1951), de Roma (1957) e de Maastricht (1992), alguém me perguntou "à queima roupa", quem encarnaria hoje melhor, de entre os responsáveis europeus, o espírito daqueles que habitualmente são os denominados "pais fundadores". Sem hesitar, respondi Mario Draghi.

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Reflectindo um pouco, reparei na ironia da minha resposta. Um banqueiro ser o principal responsável pela recuperação da "honra perdida" da Europa. Não a Europa raptada por Zeus, mas a União Europeia capturada por governos incapazes de perceber que os seus preconceitos estão a colocar o continente na cauda dos países mais desenvolvidos, sem capacidade competitiva, sem ser capaz de resolver os seus próprios problemas, sem perceber que as políticas económicas ditadas pelo seu centro decisor nos mergulham na deflação sem resolver o problema da crise multifacetada com que nos debatemos, tolhida pelo preconceito mais do que pela ciência, todos os dias ultrapassada, num qualquer indicador, pelas potências emergentes. Este é o resultado da mediocridade generalizada dos políticos que nos governam.

 

Realmente a nossa recuperação a prazo, depende da capacidade argumentativa e da resiliência daquele que, por enquanto, preside aos destinos do BCE. O que mostra, por outro lado, que o euro é a principal realização europeia que nos mantém unidos, porque a partir da sua criação não há "retorno das naus". Em termos práticos, não existe a possibilidade de retrocesso sem custos demasiado elevados que os Estados-membros não estão, felizmente, nem dispostos, nem capazes de pagar (noutra perspectiva, o Mercado Único é o complemento indispensável do euro).

 

Mas porque se depara Mario Draghi com tantos escolhos se, como responsável pelo euro e pela política monetária da eurozona, a sua difícil missão só pode ser vista como imprescindível: impedir a deflação, reduzir as assustadoras taxas de desemprego para o que será necessário criar condições benéficas ao crescimento, tornando convincente a sua actuação para mobilizar os capitais e os mercados? Porque se hesita e se procura a cada passo travar as suas iniciativas?

 

A Europa está a iniciar o que a OCDE e o FMI (por outras palavras) designa por "estagnação persistente" e os mais pessimistas por estagnação secular. Draghi há alguns meses, a exemplo da política seguida pela FED nos últimos anos, vem anunciando que se as tendências negativas europeias se mantiverem o BCE terá de se socorrer de medidas extraordinárias para inverter o caminho; as medidas postas em prática têm-se mostrado insuficientes porque Draghi teve de ser cauteloso para não acordar os demónios da ortodoxia paralisante (ele que é um ortodoxo!) e para não ultrapassar os limites impostos pelos Estatutos do Banco. Os sinais até agora não têm sido animadores: a inflação mantém-se muito abaixo dos 2% e as taxas de crescimento vão sendo sucessivamente revistas em baixa.

 

Apesar de o Governo alemão insistir na sua via restritiva, descuidando a sua responsabilidade para com toda a UE, o tempo pode correr a favor das posições da direcção do BCE. Draghi considera a situação tão preocupante que, já este mês, anunciou compras massivas de dívida pública no início de 2015, medida que se vai juntar à descida da taxa de juro directora e às injecções de liquidez que vem praticando. Até agora a Alemanha tem mantido apenas discretas pressões e votado contra nas reuniões do "board"  do BCE. Draghi não precisa de decisões unânimes, como afirmou em conferência de imprensa, basta-lhe conseguir consensos.

 

É assim que, gradualmente, o mais inesperado dos protagonistas vai cumprindo o seu papel procurando por todas as vias ao seu alcance retirar a Europa da situação pantanosa em que se deixou cair. Creio que a Alemanha vai acabar por compreender duas questões fundamentais:

 

(i) que nem tudo o que pensa ser bom para si é bom para os outros e, como procurei explicitar em artigos anteriores, (ii) que nem tudo o que pensa é bem pensado.

 

Economista. Professor do ISEG/ULisboa

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