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José Cutileiro 05 de Fevereiro de 2013 às 23:30

Brincar com o fogo

As bolsas estão a subir, os países aflitos conseguem empréstimos menos caros, há quem veja luz ao fundo do túnel, mas se a austeridade continuar e o desemprego também, o doente poderá morrer do remédio

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Karl Marx entendia que não há uma moral dos senhores e uma moral dos escravos: há uma moral feita pelos senhores para os escravos. Julian Pitt-Rivers, antropólogo inglês que casou com uma Larios, explicava que o código moral em Espanha só obriga as classes médias porque as plebes não têm posses para o respeitar e a aristocracia - homens ou mulheres – borrifa-se do que dela se possa pensar ou dizer. Acontecia em toda a Europa. Gianni Agnelli, quando andou com Pamela Digby, nora de Churchill (mais tarde Pamela Harriman, embaixadora de Clinton em França que morreu aos 76 anos na piscina do Ritz de Paris) apresentou-a, ele e ela nus, a um velho amigo no quarto da casa de Capri onde este os acolhia, conta ela nas suas memórias. Na peça Pigmalião de Bernard Shaw o pai de Liza declara que o que ganha por semana não lhe dá para ter consciência. 


Duas actualizações: 1) as classes médias são cada vez mais populosas e 2) embora a vocação normal das classes médias de hoje seja enriquecer à americana, desde que à Europa do Sul chegou a receita da austeridade o medo de empobrecerem assaltou-as. Caso muito sério do qual os nossos políticos não parecem dar-se conta (Por alheamento? Por não saberem história? Por medo da Alemanha?). As classes médias são os pilares da prosperidade e do progresso europeus. Cortar-lhes os víveres faz recuar o bem-estar geral e arrisca convulsões políticas escusadas e perigosas. É brincar com o fogo. Senhor antigo da Beira Baixa, amigo do António Alçada Baptista, rezava por que Deus acudisse aos ricos que os pobres com pouco se contentavam. Na província portuguesa desse tempo o que ele chamava ricos incluía a classe média – o mestre-escola, o chefe de estação, o lojista, o pequeno proprietário, o médico, o juiz - gente posta ao abrigo das garras da miséria. É o equivalente moderno desse mundo que vive agora com o credo na boca.

Para azedar mais os ânimos, as taxas de desemprego na Europa mostram o fosso Norte-Sul a cavar-se. Em 2012: Grécia, 26,8%; Espanha, 26,1; Portugal, 16,5 - enquanto Países Baixos, 5,8; Alemanha, 5,3; Áustria 4,3. Em relação a 2011, mais de 2% de aumento nos países do Sul (muito mais na Grécia) e menos de 1% de aumento nos países do Norte (salvo na Alemanha, onde o desemprego baixou). As bolsas estão a subir, os países aflitos conseguem empréstimos menos caros, há quem veja luz ao fundo do túnel, mas se a austeridade continuar e o desemprego também, o doente poderá morrer do remédio.

Os dirigentes da Europa – da União e dos países – lembram Fabrice em Waterloo. O herói de ‘A Cartuxa de Parma’, entusiasta fiel de Napoleão, foi à batalha de 18 de Junho de 1815, passou o dia entre tiros de espingarda e de canhão, soldados e cavalos mortos e feridos, lama, fumarada, mas não percebeu nada do princípio ao fim, nem associou o que vivia ao destino da Europa. Assim os nossos governantes desde 2010: insistem, caso a caso, em muito pouco, muito tarde, sem verem largo e sem verem longe.

Embaixador

 

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