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José Cutileiro 27 de Novembro de 2013 às 00:01

Clausewitz às avessas

Helmut Schmidt, chanceler de 1974 a 1982, com 94 anos e 3 maços de cigarros por dia desde os 15, afirmou a semana passada numa entrevista que a Alemanha tem de mostrar mais solidariedade. Com o maior superavit do mundo, mais do que a China, por fim terá de responder às pressões e gastar mais.

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A guerra é a continuação da política por outros meios, escreveu Clausewitz. Hoje passa-se o contrário: a política do euro é uma guerra, conduzida por outros meios, na qual, como sempre, os alemães estão convencidos de terem toda a razão. (Até nos jogos de futebol: quando perdem, os seus comentadores nunca percebem porquê). "Der Euro spricht Deutsch". Os estragos resultantes da obstinação alemã estão a deixar o moral de vários países europeus como se por eles tivessem passado Wehrmacht e Waffen- SS. A grande tarefa política de reabilitação moral começada em 1945 por Konrad Adenauer e continuada por Willy Brandt, Helmut Schmidt, Helmut Kohl, que em 2008 estava quase concluída, tem vindo a ser desfeita pela obtusidade do governo de Berlim e, se não houver depressa mudança de rumo, a ideia de uma Alemanha decente e generosa que, após duas tentativas catastroficamente falhadas, tinha finalmente encontrado o seu lugar na Europa, desaparecerá (e Hitler deixará de ser considerado uma aberração).

Mais assustados do que eu estão alguns alemães. O filósofo Jürgen Habermas mandou prevenir a chanceler – que nunca terá mostrado interesse em encontrá-lo – de que a Alemanha estava, pela terceira vez em cem anos, a destruir a Europa. E Helmut Schmidt, chanceler de 1974 a 1982, com 94 anos e 3 maços de cigarros por dia desde os 15, afirmou a semana passada numa entrevista que a Alemanha tem de mostrar mais solidariedade. Com o maior superavit do mundo, mais do que a China, por fim terá de responder às pressões e gastar mais. Tal superavit traz consigo uma necessidade moral. Dívidas deverão ser perdoadas e linhas de crédito a longo prazo abertas para estimular a recuperação dos países do Sul. "É comparável ao perdão da dívida [de guerra] alemã nos anos 50 do século passado".

Talvez um governo de coligação de Cristãos Democratas e Sociais-democratas que está há semanas em gestação, mas só será formado se as bases sociais-democratas, consultadas por referendo, o autorizarem – para horror de alguns políticos e economistas, chocados por abandonos anunciados de rigor – mude um pouco de rumo, embora ninguém espere

a visão e a coragem que tiveram um Kohl, um Schmidt, um Brandt ou um Adenauer. A Alemanha é complicada. O seu maior crítico literário contemporâneo – cujos programas de televisão batiam em audiências jogos de futebol – judeu com a família exterminada nos campos, ilustrou bem a complicação: "Wagner foi o mais anti-semita dos grandes intelectuais alemães. E Tristão e Isolda é a melhor ópera do mundo".

Dou por mim a escrever estas linhas a 25 de Novembro, 38 anos, ao dia, depois dos Comandos da Amadora terem varrido do poder em Portugal gente convencida de estar a construir o paraíso na Terra através de um inferno intermédio obrigatório. Os tempos e a gente são outros, mas fé num paraíso terrestre com inferno intermédio anima de novo o poder – e no estado de direito não há Comandos da Amadora que nos valham. Alma até Almeida!

Embaixador

 

A partir de 11 de Dezembro de 2013 o “Bloco-Notas” aparecerá todas as quartas-feiras em: http://retrovisor.blogs.sapo.pt 

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