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José Cutileiro 03 de Julho de 2013 às 00:01

Custos do conforto

A desatenção deliberada aos encargos da nossa própria defesa, sempre a contar com os Estados Unidos – orçamentos nacionais irrisórios salvo no Reino Unido e em França – é bomba-relógio à espera do dia em que alguém nos ataque.

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Pode-se andar na boa vida ou pode-se mandar no mundo. As duas coisas ao mesmo tempo, não se pode. Aninhados a seguir a 1945 no casulo tecido pela protecção americana contra a ameaça soviética os europeus ocidentais viveram o mais confortável pós-guerra registado na história. Vencedores e vencidos, porque medo do estalinismo fez a Alemanha ser ajudada a recuperar tão depressa quanto os aliados que a haviam derrotado. Deste lado da Europa tudo ia pelo melhor no melhor dos mundos possíveis e os benefícios do "modelo social europeu" - salários, férias, reformas, saúde - enxotavam inveja e revolta do coração das chamadas classes menos favorecidas. 


O colapso da União Soviética, a reunificação alemã, o alargamento a leste da União Europeia, a atracção pelo Pacífico dos Estados Unidos, a China, a concorrência daquilo a que chamávamos o Terceiro Mundo (onde milhões de homens, mulheres e crianças estão a habituar-se a comer todos os dias) arrancaram a Europa do conchego do casulo. Supostos direitos universais passaram a privilégios, com direito de admissão cada vez mais reservado. Exporta-se pouco, consome-se pouco, o desemprego cresce. Por fim, a desatenção deliberada aos encargos da nossa própria defesa, sempre a contar com os Estados Unidos – orçamentos nacionais irrisórios salvo no Reino Unido e em França – é bomba-relógio à espera do dia em que alguém nos ataque.

Mesmo sem chegarmos lá – longe vá o agoiro - a falta de política externa e de política de defesa europeias torna-se às vezes deprimente por mostrar que a Europa é rica, mas não é uma potência. Estamos numa dessas passagens. À indignação geral com os superprogramas de registo e verificação de trocas telefónicas e electrónicas da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos juntou-se indignação específica de governos e altos funcionários com alegada espionagem americana a embaixadas e a instalações da União Europeia em Washington, Nova Iorque e Bruxelas. Quanto à primeira continuo a pensar que é preferível viver com o monstro tecnológico instalado, submetido a controle democrático exigente e constante, do que vivermos sem ele – embora a dimensão abracadabrante da iniciativa exija explicações dos Estados Unidos. Quanto à segunda, qualquer Estado que se preze espia também os seus aliados mas, apanhado em flagrante, é da praxe que apresente desculpas (uma das coisas para as quais a diplomacia serve). Menos fácil desta vez, com a França de Hollande na busca desesperada de bodes expiatórios (cf. as acusações absurdas a Durão Barroso) e Obama a querer mostrar que é mais patriota do que Bush (cf. o uso imoderado de drones).

Penoso também neste episódio é que a União Europeia não poderia espiar os Estados Unidos. Não por escrúpulo moral mas, mesmo se os 28 parceiros estivessem de acordo, por incapacidade técnica e financeira. Não se pode, anos a fio, deixar a defesa à mercê da ajuda de terceiros e depois esperar lugar de honra à mesa dos patrões do mundo.

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