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José Cutileiro 24 de Abril de 2013 às 00:01

Da largueza do reino de Deus

O Sudão do Sul é membro das Nações Unidas. Muitos dos seus habitantes são pastoralistas e o gado bovino é tão importante nas suas vidas que os Nuer, uma das maiores tribos do país, que até há poucos anos viviam exclusivamente do gado que criavam, têm 50 palavras na sua língua para dizer boi

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Como os males alheios ajudam a suportar melhor os nossos, resolvi partilhar com compatriotas meus leitores, maltratados como eu pela crise e os remédios dela, o seguinte despacho da Associated Press, do passado dia 19:


"Juba, Sudão do Sul, o roubo de 750 cabeças de gado bovino desencadeou caça ao homem por forças de segurança que levou a ataque por essas mesmas forças a instalação médica onde quatro empregados e um doente foram mortos, disseram fontes oficiais. No total, morreram mais de 20 pessoas.

A briga começou no último fim-de-semana depois de salteadores terem roubado pelo menos 750 cabeças de gado no Estado Equatorial Oriental, perto da fronteira com o Quénia e o Uganda, disse Felix Otuduha, porta-voz oficial. Uma força constituída por guardas florestais, polícias e militares perseguiu os ladrões e na escaramuça que se seguiu estes mataram todos os polícias e guardas florestais, disse Otuduha. Nove membros das forças de segurança, cinco ladrões e dois civis morreram no confronto, declarou.

Na segunda-feira, o governo estadual – furioso com o roubo de gado e mortes subsequentes – mandou centenas de militares caçar os ladrões. Mas um funcionário federal disse que essas forças de segurança em vez de o fazerem mataram e feriram indiscriminadamente civis e queimaram casas e lojas. Atacaram também um hospital. Um membro do Parlamento declarou que não se podia ainda saber o número total de mortos porque o conflito continuava."

O Sudão do Sul é membro das Nações Unidas. Muitos dos seus habitantes são pastoralistas e o gado bovino é tão importante nas suas vidas que os Nuer, uma das maiores tribos do país, que até há poucos anos viviam exclusivamente do gado que criavam, têm 50 palavras na sua língua para dizer boi, determinadas pelas características físicas do animal. (Assim como se em Bruxelas houvesse 50 palavras para designar discriminadamente os cinzentos do céu). Antes de colonização e independência, os Nuer tinham um sistema político descentralizado que funcionava a contento e a sua religião, de grande riqueza teológica e ritual, impressionara missionários cristãos. Não seria o paraíso na Terra, mas não se vivia mal. Agora, pelos vistos, o Sudão do Sul parece estar com problemas mais desagradáveis do que o desemprego maciço e os impostos asfixiantes que atormentam os europeus.

Antes que "Schadenfreude" nos anime demais, porém, gostaria de recordar que estão ainda vivos presos e guardas de Auschwitz e que passaram menos anos do que os da minha vida sobre George Orwell ter observado em Londres que, enquanto escrevia, seres humanos altamente civilizados voavam por cima da sua cabeça, tentando matá-lo. Em barbaridade contra o semelhante, ao longo da História, os europeus não temem meças de ninguém. Nesta ponta da Eurásia, paz entre as tribos e respeito entre os indígenas são invenções recentes que podem estalar de um momento para o outro como o verniz dos sapatos que levávamos dantes a S. Carlos.

* Embaixador

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