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José Cutileiro 06 de Novembro de 2013 às 00:01

Defesa europeia

Por inspiração francesa, há muitos anos tem havido partidários de uma defesa europeia independente dos Estados Unidos. Durante a Guerra Fria tal esforço – retórico – era contrariado pelos Estados Unidos pois iria enfraquecer a OTAN.

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Signatário do Tratado de Washington de 1949, Portugal é membro fundador da OTAN, criada para defender democracias ocidentais de eventual ataque pela União Soviética. O Portugal de Salazar não era uma democracia, mas os governos dos outros membros da Aliança Atlântica, assim como Henrique III de Navarra, que se converteu ao catolicismo para ser rei de França por achar que Paris valia bem uma missa, devem ter achado que os Açores valiam bem uma ditadura. 


A União Soviética acabou. A OTAN continua a garantir a defesa da Europa porque o mundo é um lugar perigoso. Adaptou-se à gestão de crises, estreando-se na Bósnia. E mantém-se pronta para defesa colectiva: longa prática de cooperação intergovernamental facilita-lhe planeamento e exercícios. "Primus inter pares" na Aliança continuam a ser os Estados Unidos da América.

A cláusula de entreajuda do Tratado só foi evocada uma vez, a seguir aos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, pelos aliados dos Estados Unidos, e Washington declinou essa oferta de solidariedade. Seriam os americanos agora solidários se tal lhes fosse pedido? Ou entraríamos numa polémica transatlântica político-jurídica que, aos olhos do resto do mundo, afundaria mais ainda o prestígio ocidental?

Por inspiração francesa, há muitos anos tem havido partidários de uma defesa europeia independente dos Estados Unidos. Durante a Guerra Fria tal esforço – retórico – era contrariado pelos Estados Unidos pois iria enfraquecer a OTAN. Acabada a União Soviética, porém, os americanos passaram a ver vantagens numa maior capacidade militar europeia para lidar com desmandos à nossa roda. Da experiência da Bósnia nos anos 90 à experiência recente da Líbia aprendeu-se muito, sobretudo quanto à necessidade de meios americanos em missões europeias.

A União Europeia tomará conta de desmandos nas suas traseiras apoiada por meios e capacidades norte-americanas, via OTAN. Porém, para defesa de inimigo forte que a atacasse, o único instrumento eficaz de que disporia seria a própria OTAN, por causa dos Estados Unidos. No caso, menos impensável do que já foi, destes se desinteressarem seria preciso acelerar o esforço europeu comum. Trabalhos de Hércules. Segundo inquérito recente a cerca de 100 chefes políticos, militares e industriais europeus, 56% achavam que a procura de meios de defesa ia aumentar e 55% achavam que os orçamentos de defesa iam diminuir. Mesmo sob a espora da penúria, conseguir chegar a meios de defesa europeus partilhados a partir de 28 estados-maiores e várias indústrias nacionais (há 14 tanques, 19 carros de assalto, 19 aviões de caça europeus diferentes, contra 1, 1 e 6, respectivamente, americanos) exige esforço colectivo inédito. E há legislações proteccionistas. E 24 línguas oficiais. E ninguém pronto a morrer por Bruxelas, a não ser os belgas e nem todos.

Para nossa segurança, deveriam reforçar-se os laços militares, políticos e económicos com os Estados Unidos. E emular Hércules.

Embaixador

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