José  Cutileiro
José Cutileiro 29 de novembro de 2012 às 00:22

Do mal o menos

A borrasca que atormenta a Europa é pior nuns sítios do que noutros.

Da Grécia ortodoxa, ramalhete de pecados mortais pelos padrões luteranos dos alemães, à Finlândia, quase colónia sueca e depois russa, neutral durante a Guerra Fria por não querer aderir ao Pacto de Varsóvia (a Suécia também foi neutral nessa altura, mas por não querer aderir à OTAN), orgulhosa da sua força financeira (um dos raros A triplos do mundo) deixando medrar, tal como a Grécia, mas por razões opostas, protofascismos perigosos. Como se tudo isto e mais no género não chegasse há ainda os que querem largar o estado a que pertencem - por exemplo, a Escócia fugindo ao Reino Unido, com referendo apalavrado para 2014, e, espalhafatosamente desde eleições no domingo passado, a Catalunha batendo o pé à Espanha.

Pulsões nacionalistas europeias são sempre animadas por duas coisas: vontade descabelada de poder de chefes políticos locais e, fomentada por essa mesma vontade, crença disparatada no efeito mágico da independência sobre males de que o povo se queixe. Alturas como as que se vivem agora no sul da Europa são propícias. Os governos centrais - de esquerda ou de direita - depressa ficam desacreditados, a tribo procura valores seguros a que se agarrar e a Pátria sentida nas tripas é muitas vezes o que ocorre primeiro. Está a acontecer na Catalunha: sondagem de  2006 dava 13% de independistas; hoje seriam 44%. A região é a mais rica de Espanha e é também a mais endividada. Os termos da relação com o governo central são dos mais favoráveis do mundo à autonomia. Além disso a Catalunha nunca foi independente: faz parte integral da Espanha desde a fundação do país, trazida por Fernando de Aragão quando se casou com Isabel de Castela em 1469.

Na Europa, desde o fim da Guerra Fria, aconteceu a divisão amigável da Checoslováquia em 1993 dando lugar à única fronteira do Continente criada a bem - e houve terrorismo/luta armada contra o governo central na Irlanda do Norte e no País Basco espanhol, hoje debelados sem mudança de fronteiras. Muito mais importante do que isso, porém, o quadro geopolítico europeu levou baldões de monta: a URSS e a Federação Jugoslava desapareceram e a Alemanha reunificou-se.

Em Portugal, as mudanças foram outras. Se não é uno do Minho a Timor, como o Dr. Salazar tanto apetecia, é certamente uno do Minho à Ilha do Corvo, passando pelo Algarve e a Madeira. Já há uns anos, expatriado amigo meu, cientista político em Genebra, espantava-se sempre quando compatriotas de passagem, apanhados entre o fim do Império, a adesão à Europa e a eclosão da Espanha democrática se angustiavam com o problema da "identidade portuguesa" (debate então muito em voga, de sombrias boticas de Trás-os-Montes a palreiros barbeiros do Algarve) porque, lembrava o meu amigo, não há país mais idêntico do que Portugal.

Fezes temos muitas e teremos mais. Mas escapamos aos horrores dilacerantes de identidade que matam e doem por esse mundo fora. Do mal o menos.

Embaixador

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