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José Cutileiro 01 de Janeiro de 2013 às 23:30

Favas com chouriço mouro

A culpa está outra vez a deixar de ser nossa – dizem-me que muito boa gente acha que é da Alemanha. Mas duas conversas da quadra festiva, com amigos, ao telefone, sugerem que talvez haja razões de esperança

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1960. A culpa dos nossos males era do Dr. Salazar. Tínhamos ido almoçar, o Luís Sttau Monteiro e eu, ao ‘Petit Restaurant d’Algés de Manuel J. da Silva’ dizia a grande tabuleta amarela com letras azuis por cima da porta da tasca. Trabalhávamos no Almanaque, revista que saía todos os meses mas não ia à censura porque não fora classificada ‘publicação periódica’. Pedimos bacalhau à Braz e favas com chouriço mouro, para dividir. O bacalhau estava óptimo mas quando as favas chegaram logo à vista pareciam suspeitas. Servimo-nos, o Luís provou uma garfada e disse: "Ná, não é isto". Fitou-me e acrescentou "Mas a verdade é que nós também não somos".

1986. A esquerda do PREC tinha tirado metade da culpa dos nossos males ao Dr Salazar. Num dos meus regressos a Portugal mudei de casa, quis comprar um esquentador e pedi um Junker numa loja de electrodomésticos lá do bairro. "Não faça isso" disse o dono da loja. "Porquê?" "Já são feitos cá. Compre antes um Vaillant que ainda são feitos na Alemanha". Assim fiz e nunca tive razão de queixa.

2004. A culpa já era nossa mas ainda não tínhamos dado por isso. Em Coimbra, vindo de Princeton, participei em seminário sobre a Europa, num convento à beira rio. Sentaram-me na primeira fila, de costas para o público. Na segunda sessão intervinha e fui para a mesa, virado para o público. Imensa gente, pouca dela vestida de estudante mas à paisana, homens e mulheres novos de blusas, casacos ou camisolas pretas e cinzentas, cabelo escuro, pele branca, olhos tristes. Senti-me no Kosovo e assustou-me a semelhança. Contei a amigo português mais novo e ele explicou-me: "É o teor de terilene, Senhor Embaixador".

2012. A culpa está outra vez a deixar de ser nossa – dizem-me que muito boa gente acha que é da Alemanha. Mas duas conversas da quadra festiva, com amigos, ao telefone, sugerem que talvez haja razões de esperança. Ela, assistente de administração reformada, já não vê televisão, farta de pieguices e de gosto constante das más notícias em todos os canais portugueses. "Ó Zé, há gente nova que está a dar a volta por cima disto tudo. E não são um nem dois!" Vai agora regularmente com o namorado à Capela do Rato, onde sentem companhia. Ele, jovem co-proprietário e director de empresa de aluguer de automóveis com condutor a quem o negócio não está a correr mal, acha que o que falta às pessoas são imaginação e flexibilidade. A ele é a família – uma família à antiga, com amor e respeito – e não a Igreja que trás solidariedade.

Oito séculos de História sem nunca ter perdido o fio à meada criaram o calo e a manha precisos para apoiarem força e razão na defesa do país e do povo. Continuam a dar para as encomendas, das quais a última antes da crise financeira foi a integração no tecido social português de centenas de milhares de retornados das antigas colónias, com tão pouco sobressalto que já nem se fala nisso. Darão também para os rigores a mais e visão a menos que o século XXI nos trouxe.

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