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José Cutileiro 20 de Março de 2012 às 23:30

Moralidades

Há ruas em Bruxelas que guardam os nomes medievais que tinham quando eram estradas entre cidades – Calçada de Louvain, Calçada de Waterloo, Calçada de Wavre – o que agrada a conservadores instintivos como eu.

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Há ruas em Bruxelas que guardam os nomes medievais que tinham quando eram estradas entre cidades – Calçada de Louvain, Calçada de Waterloo, Calçada de Wavre – o que agrada a conservadores instintivos como eu. Ao mesmo tempo a Bélgica é ponta de lança da revolução de costumes europeia e americana dos nossos dias – praticam-se legalmente aborto, casamento de homossexuais, adopção de crianças pelos mesmos, eutanásia medicamente assistida – o que agrada a quem se sinta liberal à maneira do século XIX, sem Marx e Freud de permeio, como eu às vezes me imagino também.

Há dias na Calçada de Waterloo um cartaz com uma maçã mordida anunciava o primeiro site no internet dedicado a promover encontros amorosos extra-conjugais (um amante sai mais barato do que remédios anti-depressivos), site que fora inteiramente pensado por mulheres. Aiatolas iranianos que mandavam matar à pedrada mulheres adúlteras (já não mandam porque a lapidação foi substituída há poucas semanas por enforcamento) e pais de família paquistaneses, dos que, lá na terra, deitam ácido à cara da mulher por ela lhe ter dado mais uma filha em vez de lhe dar por fim um filho ou que, emigrados na Europa, mandam o filho assassinar a irmã por desconfiarem que ela durma com namorado que arranjou por cá em vez de reservar a virgindade para o futuro marido, negociado pela família no Punjab, pegariam fogo ao cartaz. Como pegariam também apoiantes de Rick Santorum, católico apostólico romano candidato a Presidente dos Estados Unidos ou catecúmenos de paróquias integristas francesas ou judeus ultra-ortodoxos de Tel-Aviv ou deputados ugandeses que querem pena de morte para homossexuais – e por aí fora. A intolerância grassa em muita parte do mundo.

Intolerância dizemos nós, mimados por modernidade que separou a igreja do Estado, estabeleceu regras equânimes nas relações entre governados e governantes (incluindo a substituição pacífica destes por aqueles), regulou o uso da força e está a pôr termo à subordinação da mulher pelo homem. Uma viagem que já levou séculos de guerras e guerrilhas e não acabou ainda. O equilíbrio entre liberdade e ordem é frágil. Estamos ameaçados, de fora, por interesses contrários do resto do mundo e, de dentro, por empobrecimento tal que nos vire uns contra os outros e nos deixe à mercê de poderes nefastos e de vendedores de banha da cobra armados em profetas. Quanto menos fortes formos, pior defenderemos valores e pele.

Há três anos incêndio num colégio interno feminino na Arábia Saudita, queimou alunas vivas porque a polícia de costumes não as deixou fugir em camisa de noite (para homens não as verem seminuas). Entre o universo moral onde é possível isso acontecer e aquele onde se propõe o adultério terapêutico vão menos anos-luz do que se julga. Na Europa e nos EUA há também fanáticos que querem à força pôr o mundo em ordem mas a ordem deles mataria a liberdade. Alguns parecem tentados a fazer a viagem ao contrário. Todo o cuidado é pouco.

* Embaixador

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