José  Cutileiro
José Cutileiro 13 de março de 2013 às 00:01

Os mal amados

Haverá político alemão capaz de explicar à sua gente que não há uma guerra entre bons do Norte e maus do Sul, que quebras de solidariedade põem a União Europeia em risco e que sem União Europeia a Alemanha seria menos rica, menos forte e menos amada ainda do que é hoje?

No centro geográfico da União Europeia desde que o colapso da União Soviética libertou os países do Pacto de Varsóvia e as Repúblicas Bálticas e todos aderiram ao grande bastião anti-moscovita que há décadas apeteciam, a Alemanha sente-se forte mas insegura. A seguir à derrota do Nazismo a República Federal fora conquistando a pulso o regresso à respeitabilidade perdida. Entretanto, uma vez extinto o perigo hitleriano, o perigo estaliniano levantara-se, ameaçador, como o gigante das pinturas negras de Goya.

 

O aliado de ontem – interpelado durante a guerra, Churchill respondera que, para derrotar Hitler, estaria disposto a jantar com o Diabo – transformou-se em inimigo figadal e o inimigo mortal do passado foi rapidamente reabilitado para poder alinhar ao lado dos bons. Exactamente por estar no centro da Europa por onde, numa invasão, as tropas soviéticas passariam, a RFA foi incluída desde muito cedo nas negociações que levaram às Comunidades Europeias e, poucos anos depois da criação da OTAN, foi nela acolhida como Aliado. Mais ainda. Em 1953, parceiros do projecto europeu e aliados na defesa ocidental acordaram em Londres perdoar-lhe parte da dívida de guerra e estabelecer condições muito menos penosas do que as iniciais para pagamento do remanescente.

Graças ao esforço constante e disciplinado dos seus cidadãos mas também a essa boa vontade de países amigos, a Alemanha Federal acabou por se tornar a maior potência económica europeia - sempre prudente, porém, quando se tratasse de afirmação política (era quando Kohl dizia que, antes de falar ao Presidente da República francesa, o Chanceler da Alemanha devia fazer três reverências). A reunificação alemã – cujo grande custo financeiro foi também sustentado pelos parceiros europeus - mudou tudo. A Pátria voltou a poder existir; os interesses da Alemanha passaram a poder sobrepor-se aos interesses da Europa, embora com má consciência. A primeira manifestação dessa nova autoridade ocorreu em 1992 com o reconhecimento da independência da Croácia apesar da oposição dos seus parceiros europeus. A última, até hoje, é a imposição de austeridade para resolver a crise actual. (Mais ainda do que em 1992 os parceiros europeus em desacordo acabam por meter a viola no saco).

É grande pena. Na minha experiência diplomática a Alemanha era o único grande país que se portava sem arrogância com os pequenos, o que fazia uma enorme diferença. E mesmo nas horas negras muitos alemães correram riscos para defenderem valores de democracia e decência: no "Kindergarten" onde andei na Lisboa neutral de Salazar quem olhava por nós eram a Tante Bertha e a Schwester Martha, dissidentes anti-nazis do Colégio Alemão oficial.

Haverá político alemão capaz de explicar à sua gente que não há uma guerra entre bons do Norte e maus do Sul, que quebras de solidariedade põem a União Europeia em risco e que sem União Europeia a Alemanha seria menos rica, menos forte e menos amada ainda do que é hoje?

Embaixador

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