José Eduardo Martins
José Eduardo Martins 20 de dezembro de 2016 às 07:00

2016: Quase maduros

2016 foi o ano mais perturbante das vidas banais, como a minha, já muito entradas pela respectiva segunda metade.

Sou da geração a quem deram quase tudo. Nasci antes do 25 de Abril mas, na altura, nem dei pelo 25 de Novembro. Liberdade nunca me faltou.

Venho depois da geração que sofreu porventura até mais do que se apercebia com a miséria proteccionista do Dr. Salazar, mas já pus poucas meias solas nos sapatos ortopédicos. Já cresci com pronto-a-vestir, Coca Cola e Portugal na CEE.

Quando chegou a minha vez a escola pública já era para todos, a saúde deixou de ser só para os afortunados, as férias passaram a ser pagas e o trabalho passou a valer descanso na velhice. Em suma, sou da geração a quem os sacrifícios dos pais deram um vida próspera, livre e tranquila.

A circulação de pessoas, ideias, culturas pelo mundo trazia para sempre a liberdade, a tolerância com a diferença, a igualdade entre os homens, a preferência por uma sociedade que ampara e redistribui.

A nossa modernidade tinha chegado tarde mas vinha para ficar.

Neste fim de 2016, nada disso já parece certo.

Os últimos anos já se foram enchendo de sinais estranhos. A crise e a sensação de interrupção dessa linha de progresso foram dispondo muitas pessoas a renovar a fé nas mais estranhas religiões autocráticas do século XX.

Na América Latina uma onda de populistas de esquerda fez as delícias incompreensíveis de uma certa juventude urbana que, pelos vistos, ignora que as desgraças do comunismo são indiferentes à latitude. A malta que quer perder a vergonha de redistribuir o que não produziu assusta só porque não sabemos como começa, mas sabemos sempre como acaba. Primeiro vai-se a liberdade e depois a comida.

Mas, em 2016, de repente, ser populista, nacionalista e proteccionista voltaram a ser coisas que as pessoas escolhem. Sim, agora é pior. A adesão das massas, chegou pelo voto em sociedades que foram o melhor exemplo de liberdade e resistência democrática do último século.

A direita, boa parte dela, juntou-se ao movimento anti globalização até aqui protagonizado quase exclusivamente pela esquerda.

Os populistas de direita e de esquerda têm em comum, desde logo, a rejeição dos mercados livres e abertos que sempre foram essenciais à liberdade.

Quando o Sr. Trump diz que quer acabar com as negociações do tratado de parceria transatlântica que diz de diferente dos panfletos que o Bloco distribui na baixa? Quando quer taxas alfandegárias para tudo o que mexa que diz de diferente dos comunistas que querem sair do Euro e vão começar em 2017 essa didáctica campanha.

Um ano da nossa geringonça até podia ter sido divertido de observar à distância. Um partido que afirma querer cumprir o tratado orçamental, ficar no Euro e não renegociar a dívida, apoiado por dois que dizem tudo o contrário podia ser só um espectáculo hilário e inofensivo. Uma experiência nova que as eleições ganhas por Passos Coelho e o beco em que se enfiou António Costa proporcionaram.

De perto, não é o caso. Num ano que termina sem funcionários nas escolas, sem enfermeiros nos hospitais, ou quase sem comida nas prisões - só para ir buscar exemplos das últimas duas semanas -, e uma dívida que só galopa para novos recordes, é forçoso concluir que estamos pior, só que imprudentemente mais descansados.

O lençol é o mesmo e para tapar - um tudo nada - pensionistas e funcionários públicos destapou-se um Estado Social vítima da corrupção e da incapacidade dos políticos fazerem opções sérias de médio e longo prazo.

E aqui deixamos, outra vez, de ser originais. Estamos como os outros, desnorteados e vulneráveis. A cada novo morador do Heron Castilho que vai preso ficamos uns passos mais perto de ser capturados por demagogos. A mim tanto me faz que sejam de esquerda ou de direita. E a si?  

Advogado
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