José Eduardo Martins
José Eduardo Martins 23 de outubro de 2013 às 00:01

Correntes de ar

Com uma dívida impossível de pagar nos prazos previstos e sem alternativa de financiamento para pagar o indispensável - quanto mais o que exigem os defensores do "fim da austeridade"- estamos, ainda mais, cada vez mais, à mercê do desnorte da União Europeia, por não termos feito nada a não ser cortar e encolher.

Está praticamente tudo dito sobre o Orçamento cilício que aí vem.


Serão estas opções, que sufocam o que sobra da classe média, as que um partido reformista e social-democrata devia apresentar ao fim de três anos? E são as adequadas, mesmo dentro das possíveis? Essa é a discussão que terá de se fazer, aqui chegados, quase inútil.

Dê lá por onde der, mesmo para o que sobra pagar depois dos cortes é preciso pedir emprestado. Setenta mil milhões de euros para o funcionamento da administração pública e a amortização da dívida nos próximos dois anos.

Ora, se os juros da troika continuarem a ser metade dos que podemos pagar sozinhos, não temos remédio se não continuar a ser mandados.

É triste, mas é o que é... Passados três anos, a dúvida sobre a possibilidade de retomar a soberania é mais que legítima e por isso tão usada desde o Verão por todos, a começar no primeiro-ministro que talvez devesse ser o primeiro a fazer o contrário.

Resta, pois, entrar neste orçamento casino e apostar em nova meta impossível, na esperança de que algo, lá à frente, dê a ajudinha do costume.

Com uma dívida impossível de pagar nos prazos previstos e sem alternativa de financiamento para pagar o indispensável - quanto mais o que exigem os defensores do "fim da austeridade" - estamos, ainda mais, cada vez mais, à mercê do desnorte da União Europeia, por não termos feito nada a não ser cortar e encolher.

Um dia se avaliará o que podia mudar nestes anos; sinceramente no estado de descontrolo em que estávamos, muito era impossível, mas, por agora, estamos só num beco, à espera que o muro do fundo caia.

Enquanto a providência não ajuda, o mínimo é ter cuidado com correntes de ar que ainda nos tombam um par de vezes, se formos de ter memória de gaivota.

Vem isto a propósito da entrevista do ex-primeiro-ministro que agora escreve, em francês, sobre a tortura.

Pouco me interessa o lado mundano, penal e penoso da coisa ou, sequer, o auto-retrato: "...não olho para uma situação com a ideia de a entender mas de a alterar" ou " uma das características da política é que não temos muito tempo para pensar graves decisões" . Embora, pensando bem, pudéssemos ficar por aqui...

O mais chocante, contudo e sobretudo porque vinga na conveniente amnésia da velocidade destes tempos desgraçados, é a afirmação de que os "filhos da mãe" da direita queriam era mais despesa.

Ora, só para repor a verdade, houve uma campanha eleitoral em 2009.

Manuela Ferreira Leite não fez outra coisa senão alertar que 2008 já tinha acontecido e que era preciso controlar a despesa.

O senhor engenheiro, - que se fez aí eleger porque não costumamos votar em quem nos avisa -, desatou a galgar o sentido oposto até, como confessa, lhe ter caído em cima a "realidade" e vem, agora, o intelectual lampeiro, vender a fábula de que o PEC IV era o santo cálice que evitava o resgate. O PEC IV que até o resto do seu governo achava inútil... haja pachorra.

Não fora no que deu e dava para rir, com personagens maiores até dava mais que pensar, mas o que preocupa, é que a amnésia, umas reportagens com fotografias catitas e o deserto à volta permitem discutir, a possibilidade de, em três anos, como dizia Sá Carneiro, se confundir, outra vez, rigidez facial com outras coisas. Tudo isto existe, tudo isto é triste. Se for fado, abaixo o fado.

* Advogado, militante do PSD

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