José Eduardo Martins
José Eduardo Martins 18 de dezembro de 2013 às 00:01

Encruzilhadas e ambições

O que esperamos de 2014 é, pelo menos, a coragem dos que dizem que o rei vai nu. Não basta atirar a pedra e esconder a mão. Evocar Sá Carneiro, no PSD, faz muito sentido. É homem que nunca teve medo de perder para afirmar convicções. E é sobretudo quando os paradigmas de décadas se reavaliam que a história se faz com os grandes

 

Em 2014, passaremos pelo centenário de um dos mais prósperos Verões na Europa. Aquele que antecedeu a catástrofe que resultou, também, da incapacidade de lidar com a primeira leva de globalização.

Em Junho, quando evocarmos a manhã aziaga de Francisco Fernando em Saravejo, já vamos saber o que aconteceu nas eleições para o Parlamento Europeu. Não que a coisa tenha importância como órgão representativo de alguma legitimidade, mas estas eleições, neste ano, podem começar a confirmar a desagregação do projecto ao qual confiámos boa parte do nosso futuro.

Jacques Delors comparava a construção europeia ao movimento de uma bicicleta que cairia se parasse. Sucede que, desde o início da crise das dívidas soberanas, a UE deixou de ser vista, pela maioria, como um bom negócio, em que fazíamos de conta que a burocracia não afogava a democracia, para ser uma babel de zelotas da austeridade. E a bicicleta, que sonhava com federalismo... caiu.

Chegámos a um ponto em que divisão é pouco política, no sentido ideológico, e muito mais da geografia da riqueza. No Norte, entre os alegados contribuintes líquidos para o pífio Orçamento da União, não há diferença entre os tradicionais partidos da construção europeia, um leque que vai desde socialistas a democratas cristãos. No Sul, também não. Nem o brado fariseu de alguns socialistas na oposição, como os nossos, (o herói deles era o Sr. Hollande há menos de um ano e depois o SPD alemão que, agora, elogia o Governo português lembram-se?) ilude ninguém.

Nesta antecâmara de falência, os partidos tradicionais não encontraram alternativa para uma Alemanha obrigada a uma liderança relutante e pouco disponível para partilhar responsabilidades com quem não confia. Alemanha que, assim sendo, opta por ir gerindo a austeridade pela trela da dívida - impossível de pagar nos prazos previstos - para que salivemos em cada pequeno alívio antes de ganirmos no garrote seguinte.

Ora, em tempos de prosperidade interrompida, de dor, um pouco por toda a parte, as pessoas vão usar a arma do voto para sair da caixa. Ou do euro. Ou disto, seja lá o que for que não percebemos e não nos dá confiança.

Há quem, na esquerda caviar, sonhe com a construção de um novo espaço à esquerda da social democracia... mas o que as sondagens indicam são potenciais vitórias da extrema direita cujas consequências na política interna de grandes Estados-membros estão por adivinhar, e as que se já se adivinham não pronunciam nada de bom.

Pronunciam, no mínimo, um populismo que não vai proteger ninguém, salvaguardar nenhum direito, construir nenhuma esperança. E que sublinha a estranheza com a perspectiva possível do que por cá nos espera num ano tão decisivo.

No fim-de-semana, a actividade do líder da oposição resumiu-se a pouco mais do que reuniões internas com umas hordas de militantes à bulha e o Dr. Rui Rio usou o exemplo da inacção de António Costa para lastimar o estado do sistema partidário.

Tem razão. Vale a pena voltar a recordar que as "directas" tiraram democracia aos partidos e os fizeram reféns da organização destes sindicatos de voto que fazem que o Dr. Seguro esteja mais preocupado com a Concelhia lá da Trofa ou Gondomar, em quem pagou as quotas de quem e em que camionetas vão votar... do que com a reforma do IRC.

Mas seja como for, estando como estão, são insubstituíveis, os partidos. São neles que, debatendo, afirmando a diferença, propondo a mudança das regras que não gostamos, dando a conhecer o pensamento e perdendo eleições, se disso for o caso, se formam líderes sérios. Santos à espera de andor, é peditório para o qual já demos. António Costa e Rui Rio têm direito de não querer assumir responsabilidades. Mas se querem, têm de mudar de estratégia para conquistar o respeito dos que neles depositam esperança.

O que esperamos de 2014 é, pelo menos, a coragem dos que dizem que o rei vai nu. Não basta atirar a pedra e esconder a mão. Evocar Sá Carneiro, no PSD, faz muito sentido. É homem que nunca teve medo de perder para afirmar convicções. E é sobretudo quando os paradigmas de décadas se reavaliam que a história se faz com os grandes. Com a diferença do seu pensamento. Venham eles, cá os esperamos, sem sebastianismo, só com aquela exigência que não podemos mais dispensar.

Advogado, militante do PSD


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