José Eduardo Martins
José Eduardo Martins 05 de fevereiro de 2014 às 00:01

Muro de ilusão

Enquanto os partidos do centro político, da esquerda à direita, se alheiam da realidade e não prepararam o futuro, os extremos e os demagogos aproveitam o desnorte. Estas eleições europeias por cá ainda só aproveitam a um ou outro Marinho. Na Europa, vão ser um susto. Pode ser que nos faça acordar.

 

O partido Socialista anda assarapantado com as sondagens. Não conseguem perceber como, depois do par de anos da mais dura mudança de vida, os portugueses vão continuar a preferir os partidos do governo.

E, no entanto, é fácil de entender: O PS oferece, mal disfarçadamente, mais do mesmo com protagonistas de menor confiança.

Aparte aquilo em que, publicamente, já concorda com o Governo - como a reforma do IRC ou o acordo de parceria do próximo quadro de fundos europeus -, o PS reduziu a sua estratégia a um encosto ao Sr. Hollande para tapar as misérias da ausência de programa alternativo à "nova normalidade" que nos foi cobrindo sem oposição.

O super-homem socialista vinha impor as virtudes da retoma do investimento público, explicar, à Sócrates, que as dívidas não se pagam, levantar o nariz à Sra. Merkel e com isso se justificava que, a cada nova medida do Governo, o Dr. Seguro oferecesse, todo lampeiro, a (não) alternativa de leite e mel: renegociar as metas do deficit, relativizar a importância da sustentabilidade das dívidas públicas e, acrescento eu, regressar ao desvario que tudo piorou nos anos que se seguiram a 2008. Uma cópia açucarada de Sócrates.

Quando o Sr. Hollande, depois do SPD e todos os socialistas europeus do tratado orçamental, se dedicou a aplicar internamente o que, para simplificar, se chama austeridade - sem formular sequer um esboço de alternativa de aprofundamento da União para resistir aos "mercados" e permitir uma recuperação menos dolorosa -, o PS ficou como um órfão no deserto.

Perdeu a credibilidade com que fingia levantar o cotovelo à dita austeridade que a sua família política aplica pela Europa da mesmíssima maneira com que, por cá, criticava a direita.

Enquanto o Dr. Seguro recupera do choque, uma parte de PS decidiu abanar a árvore. Infelizmente, não há fruta. Aparte as ameaças ao líder, que tem de ganhar ou desaparecer, destacou-se uma entrevista inteligente, estupidamente criticada.

Quando João Galamba diz ser preferível, em estado de necessidade, aumentar impostos, com taxas progressivas, a reduzir uma despesa que é, no essencial, toda ela o conjunto de prestações sociais em que estribamos a sociedade que promove o acesso igualitário à saúde educação e à protecção na velhice está formular uma ideia teoricamente justa.

Se acreditarmos que o mundo nada mudou com a globalização, se acharmos que o proteccionismo ainda pode erguer um muro de ilusão em torno da Europa e, sobretudo, se acharmos que ainda somos capazes de produzir o suficiente para não dependermos, seja a que taxa de juro for, de sucessivas gestões de dívida, nada a opor à justeza teórica da ideia...

O problema não é o modelo, é a realidade. Já não há por onde esticar impostos sem deixar o país deserto de quem produz. E também não produzimos o suficiente para fazer um gestão de dívida que permita tornar duradouro este nível de prestações sociais. Para mais quando estamos à beira de um desastre demográfico.

Perceber isso implica encontrar um novo modelo de redistribuição que seja mais que o nivelamento por baixo. A nova arrumação do Mundo, como diz o Henrique Monteiro, não se combate com chavões, mas com a ideia de que não podemos abdicar da democracia para gerir com justiça mesmo a escassez. Continuar, como está no relatório do Banco de Portugal a reduzir a dívida à custa das famílias, enquanto o Estado liberalmente engorda é receita para uma desgraça que não virá longe. Enquanto os partidos do centro político, da esquerda à direita, se alheiam da realidade e não prepararam o futuro, os extremos e os demagogos aproveitam o desnorte. Estas eleições europeias por cá ainda só aproveitam a um ou outro Marinho. Na Europa, vão ser um susto. Pode ser que nos faça acordar.

Advogado, militante do PSD



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