José Eduardo Martins
José Eduardo Martins 19 de janeiro de 2016 às 20:20

O caminho do meio

Vai fazer trinta anos a eleição presidencial que mais entusiasmo suscitou, pelos tempos que vivíamos e pela dimensão dos protagonistas: Freitas do Amaral, Salgado Zenha, Lurdes Pintasilgo e Mário Soares.

Estava inscrito no PSD há pouco e, apesar de nem ter idade para votar, se o pudesse fazer teria escolhido Soares… Muita coisa em Freitas do Amaral não batia certo com a minha inscrição no PSD. Hoje sei melhor o que era. Já lá vamos.

 

Essa campanha distante tem sido lembrada para contrastar com esta que se diz pobre de protagonistas e austera de ideias. Verdade. Quase verdade. De facto só há um candidato de calibre presidencial.

 

Marcelo Rebelo de Sousa é um homem absolutamente livre, culto, inteligente e um protagonista maior da vida portuguesa desde a Constituinte. A sua eleição é oportunidade para eleger um senador depois de dúzias de vezes em que votamos no que sobra da desistência das elites.

 

Marcelo vai ganhar por várias razões, mas três merecem destaque.

 

Por ser livre. O Marcelo que pergunta ao candidato baladeiro porque acha que pode ir de soldado a general é o mesmo que na primeira aula da faculdade de direito, depois de recolher um código civil na primeira fila, elogia cinicamente os alunos "manteigueiros" ou o Marcelo que dispensa Passos da campanha. É falso que queira agradar a todos. Conhecemo-lo demasiado bem para isso. Quando o acusam de hiperactividade acham que o desdouram. Não percebem que lhe estão a sublinhar a inteligência e a liberdade que sempre o vimos conjugar com prazer.

 

Por estar a fazer uma campanha quase perfeita. A direcção do PSD fez tudo para que não fosse candidato. Bastou-lhe um par de meses, no princípio do ano, a passear nas concelhias do PSD para se perceber que não havia ainda maneira do aparelho bloquear a identificação natural das bases com Marcelo. Depois de se impor, sem espinhas, no seu espaço natural, Marcelo colocou-se onde os tempos exigem: como o único candidato verdadeiramente suprapartidos. O propósito e a fraqueza de todos os outros inculca na melhor das hipóteses o alinhamento com o Governo de esquerda. Ora, depois das reviravoltas das legislativas, tudo o que devemos evitar é um árbitro que escolha um lado à partida, como todos os outros estão condenados a fazer.

 

Por fim, apesar da leveza da campanha, Marcelo por dizer coisas muito importantes que mereciam mais do que a pobre exegese eleitoral. Numa pastelaria, pareceu-me, Marcelo explica que numa eventual segunda volta não se repete o cenário de 86 porque ele ao contrário de Freitas do Amaral representa a "esquerda da direita".

 

Que quer afinal dizer dessa coisa aparentemente simples, a esquerda da direita? A política serve para corrigir a exclusão ou combater a desigualdade? A esquerda da direita responde a segunda. O resto da direita talvez não. Não é nada pouco.

 

O PSD dos últimos anos, mesmo se baralhado por um revisionismo que não se chegou a perceber, nunca negou alguns dos elementos essenciais dessa premissa como, por exemplo, a progressividade da tributação sobre o trabalho.

 

Quando me tornei militante do então PPD, a matriz do partido era a do pensamento de Bernstein. Seguramente que os últimos vinte anos deveriam ter obrigado a maior reflexão e actualização. Mas, mesmo sem ter sido feita essa reflexão tão necessária, perdura a ideia de um pensamento à direita que quer encurtar distâncias sociais como vantagem diferenciadora do PSD sobre todos os outros partidos. Freitas, em 86, não casava com essa ideia.

 

Marcelo sabe isso, as pessoas sabem isso, e é por isso que no domingo recuperará muito do espaço do centro que se sente órfão, com uma legitimidade superior à de qualquer dos actores políticos que protagonizarão o futuro próximo.

 

Advogado

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