José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 07 de novembro de 2018 às 20:16

Bolsonaro e a divisão do Brasil

Só foi preciso uma crise económica para que o enorme descontentamento social adquirisse uma expressão política radical. No Brasil, deu pelo nome de Bolsonaro; nos EUA, de Trump; em Itália, de Salvini e Maio. Terá parado por aqui?

A FRASE...

 

"Bolsonaro não pode errar na condução da economia para não viver os mesmos constrangimentos de outros governos", Folha de São Paulo, 4 de novembro de 2018

 

A ANÁLISE...

Não foi Jair Bolsonaro que dividiu o Brasil em duas partes inconciliáveis, foi a clivagem profunda da sociedade brasileira que deu palco à personagem política de Bolsonaro. O mesmo aconteceu nos EUA, em Itália e em tantos outros países europeus.

 

Também não parecem ter sido a corrupção e a falta de segurança nas ruas as únicas causas da implosão do centrão no Brasil. De acordo com um inquérito do Instituto Datafolha de outubro de 2017 – no auge da crise económica e política – só 18% dos brasileiros elegeram como preocupação principal a corrupção/segurança. Não obstante a importância destes temas, a frustração da maioria dos brasileiros é essencialmente económica e prende-se com a estagnação do rendimento. Mas nesta história há algo que não joga, pois essa é a narrativa dos países desenvolvidos ocidentais nos quais despontaram movimentos populistas. Não deveria ter sido diferente para um mercado emergente especializado na produção de matérias-primas, como o Brasil?

 

Na verdade, a globalização provou ser boa demais para o Brasil. A explosão de procura por matérias-primas associada aos processos de industrialização de colossos como a China criou um surto de riqueza, que enriqueceu ainda mais as elites detentoras do capital e permitiu financiar políticas sociais dirigidas aos mais desfavorecidos. Acontece que tais políticas desincentivaram o investimento e minaram a competitividade da economia, criando um processo de desindustrialização e de consequente quebra do emprego. Tudo isto se traduziu num esmagamento da classe média, cujo rendimento cresceu muito menos do que o dos "pobres" e dos "ricos", como mostram os dados sobre a distribuição dos rendimentos do World Inequality Lab.

 

No fundo, passou-se no Brasil o mesmo que aconteceu em vários países ocidentais, ainda que através de mecanismos diferentes. Só foi preciso uma crise económica para que o enorme descontentamento social adquirisse uma expressão política radical. No Brasil, deu pelo nome de Bolsonaro; nos EUA, de Trump; em Itália, de Salvini e Maio. Terá parado por aqui?

 

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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