José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 20 de maio de 2016 às 00:01

Globalização e populismo 

É cada vez mais comum nos espaços de opinião ver-se associada a globalização com a polarização do debate político nas democracias ocidentais.

Implícito nesta linha de raciocínio está a ideia de que os benefícios da globalização para as sociedades mais desenvolvidas se esgotaram, o que tem provocado uma erosão do centro político em benefício dos extremos populistas. Esta grelha de análise tem sido muito utilizada para explicar fenómenos desviantes, como o rápido progresso de partidos de matriz nacionalista na Europa (direita xenófoba no Norte da Europa e esquerda contestatária e antiausteridade nos países do sul), bem como o "Brexit", ou o prodígio Trump. O argumento desenvolve-se sobre a premissa de que a globalização está a operar uma transferência de bem-estar dos países mais desenvolvidos para os menos desenvolvidos, ao permitir que os últimos inundem os primeiros com produtos que comprometem a economia e imigrantes que destroem a coesão social. Na minha perspectiva, a tese erra o alvo.

 

A liberalização do movimento de mercadorias e capital e pessoas cria novos mercados, estimula o investimento transfronteiriço, aumenta a produtividade e o emprego, reduz os custos de vida e alarga a escolha dos consumidores. Numa expressão: globalização = prosperidade + liberdade. Porém, não se pode escamotear o facto de a globalização requerer ajustamentos, que podem ser duros em sectores e territórios específicos. Mas estes são efeitos temporários e localizados que, como tal, não podem explicar fenómenos generalizados como a deriva populista a que vimos assistindo. 

 

O que causa a acrimónia dos eleitorados contra o sistema vigente não é a globalização, mas sim a forma como o Ocidente a ela reagiu. Numa atitude paternalista, os governos decidiram imunizar os cidadãos das vicissitudes da maior integração internacional, usando a política económica para desenvolver actividades abrigadas da concorrência internacional, como o imobiliário, o retalho, as actividades financeiras e, claro, toda uma panóplia de programas de despesa pública. O resultado foi desastroso. Não só os países mais ricos não se ajustaram ao paradigma da globalização, como se foram especializando em actividades pouco produtivas. Pior ainda, a acumulação de dívida necessária para alimentar a expansão do sector não-transaccionável e do Estado degenerou numa violenta crise financeira, que rapidamente se tornou económica também. Aqui chegados, ao invés de abraçar as possibilidades que a globalização oferecia para relançar as suas economias, os países ocidentais optaram por redobrar a intensidade da estratégia que os levou à desgraça, tornando as respectivas políticas monetárias mais expansionistas, aumentando ainda mais a dívida e acentuando, no processo, o fosso da desigualdade social entre aqueles que beneficiaram do impacto positivo do maná monetário na valorização dos activos financeiros e os que perderam o emprego ou viram os seus salários estagnar. A combinação de desemprego, com empobrecimento das classes médias, alienação dos jovens e aumento da desigualdade são razões bastantes para justificar a deriva política nos EUA e em quase todos os países da Europa.

 

Se é certo que a globalização beneficia o povo em geral, não é menos verdade que também introduz incerteza e prejudica poderosos interesses instalados. Foi a tentativa da mitigação desses efeitos que semeou o fruto da frustração política que está a fomentar a ascensão do populismo nas democracias ocidentais.

 

Chief economist do Millenniumbcp

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