José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 05 de setembro de 2018 às 21:45

Itália: onde estão os críticos da austeridade?

Muitos acham que basta à Europa deixar os "spreads" da dívida italiana explodir para pôr Roma em sentido.

A FRASE...

 

"Eles [políticos europeus ] usam os 'spreads' das obrigações [governamentais] como arma de destruição financeira para derrubar governos e pôr lá os seus amigos."


Claudio Borghi, presidente da comissão do orçamento do parlamento italiano, The Telegraph, 15 de agosto 2018

 

A ANÁLISE...

 

O abrandamento da economia italiana, as 40 mortes provocadas pelo colapso de uma ponte em Génova e o inesperado sucesso do pacote orçamental de Trump na dinamização económica dos EUA, de repente, tornaram bem mais razoável a política económica do novo governo de Itália, centrada na aplicação de um choque fiscal e na realização de um programa de investimento em infraestruturas. Tal orientação está a ser aplaudida pelo eleitorado, a acreditar nas sondagens que indicam o reforço da soma das intenções de voto nos partidos da coligação (Lega + M5S) para cerca de 60% (compara com cerca de 50% nas eleições de março). Aliás, não fora o posicionamento ideológico do executivo italiano, estou certo de que já teria aparecido um coro de economistas keynesianos a louvar o pendor expansionista da política orçamental, bem como a coragem dos políticos italianos em desafiar a ortodoxia de austeridade de Bruxelas. Aparentemente é a alegada insustentabilidade da dívida pública italiana que está a silenciar os tradicionais críticos da austeridade. Mas não é este o grupo que advoga que o efeito multiplicador da despesa do estado transforma endividamento insustentável em sustentável?

 

Seja como for, se o governo italiano avançar com as suas intenções, o défice e a dívida agravar-se-ão no curto prazo, cenário em que a implosão do mercado de dívida pública se torna provável, com consequências catastróficas para Itália, mas também para o sistema bancário da Europa e, logo, para toda a economia europeia. Posto isto, ou o BCE acomoda a política italiana, o que implica renovar o programa de compra de dívida ou Roma recua. A primeira hipótese parece politicamente impensável na Alemanha; a segunda em Itália. Quem cederá? Muitos acham que basta à Europa deixar os "spreads" da dívida italiana explodir para pôr Roma em sentido. Porém, a crescente popularidade do governo italiano e a oposição estrutural dos seus líderes ao euro leva-me a crer que poderá não ser assim tão simples.

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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