José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 11 de abril de 2017 às 19:57

O populismo no Ocidente

No Ocidente, demasiada gente depende do Estado social, como beneficiário ou funcionário. Isso significa que o Estado social é dificilmente sustentável (por razões económicas) e dificilmente reformável (por questões políticas).

Até agora esta insanável contradição foi sendo sanada com dívida pública. Mas esse expediente atingiu o limite. O resultado é austeridade nas prestações sociais e agravamento fiscal. Esta tensão está a traduzir-se numa alteração da paisagem política e na clivagem e crispação entre as fações que apoiam o "status quo" e aquelas que o contestam.

 

É sobre esses dois eixos que agora se desenrola a luta política no Ocidente. De um lado temos as fações tradicionais; do outro, as fações populistas. A primeira defende e promete a viabilidade do sistema atual, mediante pequenos ajustamentos da máquina do Estado e a prossecução de políticas de desenvolvimento inteligentes - seja lá o que isso queira dizer. A segunda reclama que o sistema está viciado em função de interesses particulares e em detrimento da generalidade da população e que, por isso, tem de ser endireitado - a bem ou a mal.

 

Os políticos tradicionais têm o mérito de tentar preservar a paz social e evitar disrupções desnecessárias e o demérito de promover um imobilismo incompatível com a urgência da situação. Os populistas têm o mérito de apontar as limitações do sistema atual, mas pecam por oferecer explicações simplistas e soluções que, amiúde, são estéreis e perigosas. Falta emergir, como síntese destes dois extremos, uma fação que reconheça abertamente a necessidade de reforma, sem concessões ideológicas nem derivas extremistas. Qualquer esforço nesse sentido contará com níveis de capital humano e físico sem precedentes e uma capacidade tecnológica ímpar, permitindo encarar o futuro com grande otimismo. Mas para que esta solução benevolente possa vingar é imprescindível apaziguar os pequenos (mas muito humanos) medos e preconceitos, que, se não controlados, podem transformar-se em sementes de desgraça, como tantas vezes aconteceu na história.

 

Ao contrário do que muitas vezes é referido, não me parece que a principal génese dos receios da população ocidental resida nos efeitos da globalização, fenómeno que conta já com três décadas e cujos impactos mais disruptivos nas economias ocidentais ocorreram muito antes desta última vaga de populismo. Mais do que a globalização, outros dois fatores estão a gerar grande ansiedade entre as classes operárias da Europa e dos EUA. Em primeiro lugar, o Ocidente está num processo de crescente e indelével perda de influência numa ordem económica e política que se está a forjar cada vez mais a oriente, após mais de três séculos de incontestada hegemonia, gerando um sentimento generalizado de insegurança. Em segundo lugar, é preciso não esquecer que a estrutura de organização laboral se manteve relativamente constante desde o advento da revolução industrial, sendo que as alterações que ocorreram foram benéficas para os trabalhadores: melhores condições de trabalho, menos horas, maior proteção do emprego. Contudo, as novas tecnologias vêm desmaterializar os postos de trabalho, perspetivando uma mudança radical da organização laboral tradicional para formas do tipo "gig-economy" (como a Uber), que exigem mais flexibilidade, mas geram mais incerteza e angústia.

 

Como estas tendências são difíceis de travar, o melhor é ir preparando as sociedades ocidentais para um futuro que se afigura mais incerto, é inegável, mas que também apresenta um enorme potencial de prosperidade coletiva.

 

Chief economist do Millenniumbcp

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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