José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 16 de julho de 2018 às 18:03

O sonho de Draghi

Para que Draghi possa ser consagrado como o salvador do euro, a economia europeia tem de suster a extensa miríade de riscos que por aí pululam até novembro de 2019, quando termina o seu mandato no BCE.

A FRASE...

 

"O euro é irreversível, forte e mais [países] querem juntar-se"

 

Reuters, 14 de junho de 2018

 

A ANÁLISE...

 

O sonho de Draghi é emular Bernanke. Bernanke é creditado como tendo salvado o mundo de uma repetição da Grande Depressão. Draghi quer ser creditado como tendo salvado o euro da desintegração.

 

Quando o colapso do Lehman Brothers ameaçou destroçar o sistema financeiro mundial, Bernanke era o homem certo no lugar certo. Estudioso da Grande Depressão, Bernanke desenvolveu a teoria de que as espirais deflacionistas causadas por crises bancárias podem ser quebradas com a injeção de quantidades suficientes de liquidez. A história ofereceu-lhe o laboratório para testar a sua teoria e a história deu-lhe razão. A aplicação da sua receita foi gradualmente retirando os EUA do torpor deflacionista.

 

Mas a teoria de Bernanke foi contada só pela metade. Ficou por explicar que o "quantitative easing" (QE) falseou o mecanismo de alocação do capital e, por isso, gerou níveis de dívida insustentáveis. Também não explicou que o QE não pode ser facilmente revertido, porque a absorção da liquidez aspira o hélio das bolhas previamente insufladas. Bernanke não teve de explicar nada disto porque saiu da Reserva Federal antes de todas as consequências da sua teoria serem visíveis.

 

Observando o sucesso do QE nos EUA, Draghi percebeu que a mesma receita poderia ser usada para travar o risco de iminente dissolução do euro em 2012. Teve razão. Ao levitar o mercado de dívida pública da periferia europeia com QE, Draghi salvou o euro. Mas o QE de Draghi também não pode ser revertido, porque a explosão de endividamento na Europa não comporta um agravamento substancial das condições de financiamento.

 

Tal como Bernanke, Draghi chegou ao leme do banco central no meio de uma crise grave. Tal como Bernanke, Draghi resolveu o problema. Bernanke conseguiu sair de cena antes que o lado negro da sua política fosse revelado. Para que Draghi possa ser consagrado como o salvador do euro, a economia europeia tem de suster a extensa miríade de riscos que por aí pululam até novembro de 2019, quando termina o seu mandato no BCE.

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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