José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 30 de julho de 2018 às 20:18

O sonho de Merkel

A importância que Merkel teve na condução da Europa nos anos da crise é amplamente reconhecido - certamente na sua pátria. Porém, este seu legado só será reconhecido se a moeda única sobreviver.

A FRASE...

 

"Quando parecia que o euro iria colapsar [Merkel] disse (…) que a civilização Maia e outras haviam desaparecido. Noutras palavras, a [civilização] europeia poderia também desaparecer."

 

Simon Kuper, ft.com, 18 de março 2016

 

A ANÁLISE...

 

Angela Merkel foi a grande líder da Europa do início do século XXI. Sem ela provavelmente já não haveria euro e a União Europeia (UE) ter-se-ia fragmentado irremediavelmente. Nesse cenário, a Alemanha não seria mais que uma potência regional num bloco em declínio relativo.

 

A importância que Merkel teve na condução da Europa nos anos da crise é amplamente reconhecido - certamente na sua pátria. Porém, este seu legado só será reconhecido se a moeda única sobreviver. Daí que o sonho de Merkel de ficar para a história como a salvadora do projeto europeu implique o fortalecimento do euro. Mas perante o recrudescimento dos populismos e nacionalismos na Europa, a promoção do reforço da integração monetária é uma tarefa formidável, mesmo para Merkel, a qual se vê crescentemente acossada pela deriva nacionalista da cena política alemã. É por precisar do euro e por não poder promover as medidas necessárias à sua sobrevivência (por razões políticas domésticas) que Merkel prescindiu do protagonismo na reforma da UEM em favor de Macron, optando antes por adotar uma estratégia simples, que consiste em apoiar uma versão minimalista da agenda do Presidente francês, nomeadamente no que toca ao estabelecimento de uma capacidade orçamental comum, que possa ser vendida internamente como simbólica, mas que seja escalável para algo de mais estrutural na próxima crise do euro.

 

Será que esta estratégia resultará? É possível, mas está longe de ser garantido, em boa parte devido à forma como Merkel lidou com a crise dos refugiados em 2015, a qual acabou por abrir uma segunda fissura, ao lado da tensão norte-sul, no edifício da integração europeia. Se a estas duas potentes forças fragmentárias somarmos a ameaça decorrente da ausência de uma solução negociada para o Brexit, o agravamento geopolítico a leste das fronteiras europeias (Rússia e Turquia), entre tantos outros riscos, concluímos que precisamos de uma nova Merkel para garantir que a original entrará na história como a salvadora da Europa.

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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