José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 02 de junho de 2016 às 00:01

O dividendo da globalização

Visto do lado de onde o sol se põe, a globalização transformou-se numa cruel ironia: o Ocidente reabilitou o resto do mundo, mas deixou-se intoxicar pelo próprio sucesso.

A FRASE...

 

"Isto [globalização] parecia uma boa ideia à altura; era como se o Ocidente dissesse: vós produzis que nós consumimos."

 

Rabino Lord Jonathan Sacks, discurso  na Templeton Foundation, Londres 31 de maio 2016

 

A ANÁLISE...

 

A luta que se travou ao longo da segunda metade do século XX entre capitalismo e comunismo terminou com uma inapelável vitória do Ocidente, que se consubstanciou na difusão planetária da Pax Americana. Na prática, essa transformação, a que nos referimos como globalização, envolveu a universalização do sistema de economia de mercado e abertura ao comércio e investimento internacionais de países outrora completamente fechados ao exterior, como a China, ou altamente protegidos, como a Índia, entre muitos outros exemplos. Ora, como é normal no rescaldo de uma guerra, os contendores vitoriosos reclamam os dividendos da paz sob a forma de uma qualquer vantagem económica.

 

No caso da Guerra Fria, o dividendo assumiu a forma a que se refere Lord Sacks: o Ocidente consumia aquilo que o resto do mundo produzia. Porém, esta dinâmica levou à criação de enormes bolsas de desemprego estrutural, precisamente nos setores transacionáveis, que passaram a ser dominados pelas economias emergentes. Para fazer face a este problema, o Ocidente estimulou "ad absurdum" o setor não transacionável para absorver uma parte da mão de obra tornada redundante pela globalização e expandiu o Estado social para manter apaziguada a outra parte. Tudo teria corrido pelo melhor não fora o facto de o uso e abuso do dividendo da paz ter desestruturado as sociedades ocidentais, tornando-as menos produtivas, mais dependentes e conflituosas. Visto do lado de onde o sol se põe, a globalização transformou-se numa cruel ironia: o Ocidente reabilitou o resto do mundo, mas deixou-se intoxicar pelo próprio sucesso.

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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