José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 01 de junho de 2015 às 20:00

O pretenso jugo do euro

Se, de facto, o euro é um jugo da Alemanha sobre a "periferia", então é da mais elementar justiça que a "Europa" subsidie os mais frágeis. Este até poderia ser o fim da discussão não fora a radical inversão das circunstâncias, a partir de 2010, fazer ruir as fundações da tese do jugo.

A FRASE...

 

"Nos 12 meses terminados em março de 2015, a balança corrente [da área do euro] registou um excedente de 244,5 mil milhões de euro (2,4% do PIB)."

 

Comunicado de Imprensa, Banco Central Europeu, 21 de maio de 2015

 

A ANÁLISE...

 

Reza a história, tal como contada por alguns setores, que o euro foi aproveitado pelos alemães para conquistarem pela moeda o que não conseguiram pela força: a Europa. Esta visão, que desconsidera o facto de o euro ter sido criado para diluir a supremacia monetária da Alemanha reunificada, baseia-se numa lógica apelativa, mas errónea: a moeda única era fraca para os alemães e forte para os países periféricos, o que terá permitido à primeira prosseguir uma política mercantilista que parasitou os segundos até ao âmago. E nada melhor para comprovar a natureza neocolonialista do euro do que o contraste entre os enormes excedentes comerciais da Alemanha e os monstruosos défices da "periferia" que prevaleceu até à crise da dívida soberana europeia em 2010. Naturalmente que a aceitação desta tese se presta a instrumentalizações políticas, que vão desde a exigência de repúdio da dívida de países como a Grécia ou Portugal até ao mais corriqueiro discurso anti-austeridade.

 

Se, de facto, o euro é um jugo da Alemanha sobre a "periferia", então é da mais elementar justiça que a "Europa" subsidie os mais frágeis. Este até poderia ser o fim da discussão não fora a radical inversão das circunstâncias, a partir de 2010, fazer ruir as fundações da tese do jugo. Com efeito, a crise de dívida soberana projetou a "periferia" de uma crónica situação deficitária para uma de excedentes. E a Alemanha? Será que conseguiu sobreviver ao colapso dos seus mercados de exportação cativos? As estatísticas mostram-se que assim foi. Mas, se tanto as exportações do "centro" como as da "periferia" estão a crescer significa que a área do euro, no seu todo, está a acumular consideráveis excedentes - cerca de 2,5% do PIB, na verdade. Aplicando a tese do jugo germânico a estes números, parece que afinal o euro foi criado pela Alemanha, não só para conquistar a Europa, mas também o resto do Mundo. E o Mundo deixa!

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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