José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 28 de maio de 2018 às 21:50

Tempestade perfeita na Europa

A redução das compras de dívida do BCE está já a refletir-se num abrandamento do crédito, com efeitos negativos sobre a procura agregada da área do euro.

A FRASE...

 

"O mistério do abrandamento da área do euro."

 

Manchete do Financial Times, 15 de abril de 2018

 

A ANÁLISE...

 

Contra todas as expetativas, a economia europeia está a arrefecer. Ao abrandamento do PIB da UEM no primeiro trimestre sucedem-se indicações de que o segundo trimestre possa ser ainda mais fraco. Porquê? Ao contrário de 2017, em que tudo parecia empurrar para cima, em 2018, tudo parece puxar para baixo. Vejamos.

 

As condições monetárias globais estão mais restritivas. Nos EUA, a Reserva Federal continua a normalizar a política monetária através da subida das taxas de juro e da absorção da liquidez anteriormente injetada ao abrigo dos programas de compra de dívida, tornando o financiamento em dólares mais caro e menos abundante e favorecendo a apreciação do dólar. Esta combinação é absolutamente tóxica para os mercados emergentes mais endividados em dólares, os quais têm visto as suas moedas depreciarem-se significativamente. Daqui resultam dois efeitos negativos para a Europa: deterioração da situação financeira das empresas europeias expostas a dívida em dólares e redução das exportações europeias para os mercados emergentes, componente crucial do crescimento da economia da área do euro durante 2017.

 

As guerras comerciais entre os EUA e a China poderão ter como principal vítima a União Europeia. Isto porque a China cedeu às ameaças protecionistas de Trump baixando as tarifas para os produtos americanos e comprometendo-se a reduzir o excedente comercial face aos EUA, pelo que é inevitável que parte das exportações europeias para a China venha a ser substituída por produtos americanos - especula-se que a Airbus possa vir a ser uma das primeiras vítimas (em detrimento da Boeing).

 

A escalada do preço petróleo nos últimos meses tem um impacto muito deletério na Europa, que importa a quase totalidade do crude consumido.

 

A redução das compras de dívida do BCE está já a refletir-se num abrandamento do crédito, com efeitos negativos sobre a procura agregada da área do euro.

 

Finalmente, a questão de Itália vem exacerbar os já de si elevados níveis de incerteza.

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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