José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 11 de junho de 2018 às 20:50

Tempestade perfeita nos mercados emergentes

A dívida em dólares dos mercados emergentes deverá ser uma das primeiras vítimas. Esta circunstância torna-se ainda mais penosa pelo considerável aumento da emissão de dívida pública dos EUA para financiar os cortes de impostos de Trump.

A FRASE...

 

"Alguns investidores (…) podem não estar bem posicionados para subidas das taxas de juro, mesmo aquelas largamente antecipadas pelos mercados."

 

Jerome Powell, Presidente da Reserva Federal dos EUA, 8 de maio 2018

 

A ANÁLISE...

 

Neste mundo altamente globalizado um inocente bater de asas de borboleta pode mesmo provocar um maremoto. Vem isto a propósito da política monetária da Reserva Federal dos EUA (Fed), cujo mandato incide sobre variáveis domésticas, mas cujo impacto se projeta globalmente por via da relevância internacional do dólar, em especial para as economias com sistemas financeiros menos robustos, como os mercados emergentes.

 

Com o desemprego em mínimos e a inflação em cima do objetivo de 2%, a economia americana reclama uma rápida normalização da política monetária. Acontece que o contexto atual é mais complexo do que em ciclos anteriores porque a Fed, além de ter esmagado as taxas de juro a zero, inundou a economia de liquidez, a qual terá de ser absorvida nesta fase de normalização da política monetária. Pelo que, a menos de uma inesperada expansão do crédito nos EUA, a liquidez subtraída pela Fed terá de vir de qualquer lado. A dívida em dólares dos mercados emergentes deverá ser uma das primeiras vítimas. Esta circunstância torna-se ainda mais penosa pelo considerável aumento da emissão de dívida pública dos EUA para financiar os cortes de impostos de Trump, o que ameaça fazer desviar ainda mais fundos das economias emergentes. A situação está a gerar grande apreensão, levando mesmo o governador do banco central da Índia a endereçar um pedido de moderação do ritmo de redução da liquidez à Fed, em artigo no Financial Times. Mas a Fed não denota qualquer sinal de indulgência para os menos preparados (ver frase). Veremos se o ácido monetário não respinga para os próprios EUA.

 

Como se não bastasse o agravamento do serviço da dívida por via do aumento das taxas de juro e da forte apreciação do dólar, os mercados emergentes vêm-se ainda a braços com reduções na disponibilidade dos fundos necessários ao refinanciamento da sua dívida. Isto a somar ao abrandamento da economia chinesa, à queda dos preços de algumas "commodities" e à instabilidade política em alguns destes países.  

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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