José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 23 de abril de 2018 às 19:45

Tensões entre EUA e China não vão desaparecer

Se a China irá assumir predomínio global ou não, só o futuro dirá. Mas há uma coisa de que podemos estar certos: os EUA, sobretudo se sob o comando de D. Trump, não irão tragar esta ambição hegemónica da China de ânimo leve.

A FRASE...

 

"O Presidente [Xi Jinping] expôs a sabedoria e o exemplo que o nosso país pode oferecer a um mundo ainda em busca do crescimento sustentável."

 

Liu Xiaoming, Embaixador da R. P. da China no Reino Unido, 23 de abril de 2018

 

A ANÁLISE...

 

Na semana passada, defendi aqui que o discurso apaziguador de Xi Jinping no Fórum Boao tinha como desiderato evitar perturbar o "status quo", que reforça os interesses da China, mas erode os dos EUA. Argumentei também que essa era uma estratégia astuta porque as regras que enformam o "status quo" - comércio livre, diálogo, autodeterminação dos povos - foram criadas pelo Ocidente, o que torna difícil aos EUA contestá-las ou subvertê-las. Esta atitude da China deveria ser suficiente para tranquilizar os EUA e restabelecer a harmonia na ordem económica mundial. Mas tão benigno desenlace dificilmente se materializará. É que a par do tom conciliador, o Presidente Xi deixou expressa uma intenção clara de liderança global, assente no poderio económico da China e na sua posição mais aberta e dialogante no foro da geoestratégica (implicitamente em contraste com o alegado belicismo americano).

 

Mais uma vez a oportunidade da intervenção de Xi Jinping é irrepreensível. Na vertente geoestratégica, a política externa dos EUA dos últimos anos está longe de ter tido um retumbante sucesso, enquanto a China vai forjando laços com países de todos os continentes, atraindo-os para dentro da sua órbita de influência. Na vertente económica, basta recordar que quando o Presidente G. W. Bush tomou posse, a economia chinesa correspondia a 12% do PIB dos EUA. Quando B. Obama prestou juramento, essa percentagem era de 33% e, quando D. Trump entrou na Casa Branca, de 60%. Hoje já vamos em 70%. O Presidente americano que for eleito em 2024 será, quase de certeza, o líder da segunda maior economia mundial.

 

Se a China irá assumir predomínio global ou não, só o futuro dirá. Mas há uma coisa de que podemos estar certos: os EUA, sobretudo se sob o comando de D. Trump, não irão tragar esta ambição hegemónica da China de ânimo leve. A guerra comercial que o Presidente americano está a travar com a China é pouco sobre défices comerciais e tudo sobre travar a China. Daí que se a China recuar estrategicamente no tema do protecionismo e convencer a Coreia do Norte também a recuar, por modo a esvaziar as exigências americanas, é provável que Trump procure uma linha ainda mais vermelha para a China… como Taipé. Esperemos que não, porque para este conflito não há saídas airosas.

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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