José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 04 de janeiro de 2017 às 20:00

Vitória muito amarga do BCE

O aumento da inflação por via do encarecimento do preço do petróleo tenderá a penalizar o consumo diretamente, além de implicar menor necessidade de manter condições monetárias tão expansionistas.

A FRASE...

 

"A inflação alemã (…) atingiu o nível mais elevado em três anos, indiciando que a política monetária do BCE está a funcionar."

 

Reuters 3 de janeiro de 2017

A ANÁLISE...

 

Na Alemanha, a taxa de inflação homóloga passou de 0,7% em novembro para 1,7% em dezembro, essencialmente devido ao efeito conjugado do aumento do preço do petróleo e da forte depreciação do euro. Se o primeiro só muito indiretamente é obra do BCE, já a segunda tem a marca de água de uma política monetária extremista, que combina taxas de juro negativas com a compra de montantes avultados de dívida europeia. Tudo isto justificado pelo risco de deflação, que agora a generalidade dos analistas considera ter desaparecido. Caso para clamar vitória, sem dúvida. Uma vitória amarga, no entanto, porque a recuperação económica da área do euro iniciada em 2014 tem-se baseado no crescimento robusto do consumo privado, que teve como principais impulsionadores a redução da fatura energética e a queda dos custos de serviço de dívida das famílias, associado à diminuição das taxas de juro do euro.

 

O aumento da inflação por via do encarecimento do preço do petróleo tenderá a penalizar o consumo diretamente, além de implicar menor necessidade de manter condições monetárias tão expansionistas, o que concorre para a inversão da tendência decrescente das taxas de juro, prejudicando, também por esta via, o consumo. Mas porventura mais preocupante, a redução do ritmo de compras de dívida pública por parte do BCE, que necessariamente resultará da normalização da política monetária, aumentará a pressão sobre os países mais endividados, entre os quais figura Portugal. Não foi por acaso que, em reação à divulgação da taxa de inflação alemã, a taxa de juro implícita nas obrigações do Tesouro português a dez anos sofreu um dos maiores aumentos dos últimos seis meses e para valores muito próximos de 4,0%.

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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