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Fora da caixa

As ideias são virais. Aparecem, afetam uns poucos, infetam muitos, depois, de tanto se replicarem, amolecem os cérebros, tornam-se insuportáveis e, por fim, vão definhando e morrem.

As ideias são virais. Aparecem, afetam uns poucos, infetam muitos, depois, de tanto se replicarem, amolecem os cérebros, tornam-se insuportáveis e, por fim, vão definhando e morrem. Algumas boas ideias que surgiram na última década começam agora a entrar na fase da decadência rondando o enfadonho. Empreendedorismo é uma delas. Que os portugueses têm de ser mais empreendedores é uma evidência. Habituados ao encosto do Estado, temerosos da autoridade, submissos às hierarquias, os portugueses têm pouca iniciativa e não apreciam o risco. Por isso, a ideia de promover o empreendedorismo e, por associação, a iniciativa, a inovação, a criatividade, a ambição, invadiu o discurso de políticos, empresários, jornalistas, comentadores e muita gente. É preciso inovar, ser criativo, pensar fora da caixa ou, em mais sofisticado, pensar lateral. "Powerpoints", "startups", incubadoras e outros "franchisings", não se cansam de motivar, mobilizar, ativar competências e talentos adormecidos. Não têm faltado também as divagações sobre as funções de cada lado do cérebro, os exercícios que promovem as dinâmicas de grupo, o "coaching", as relações interpessoais e toda uma gama de fantasias derivadas da pseudo ciência que é de facto a psicologia.


Enfim, se não tem feito muito bem, também, na realidade, não faz muito mal. Os portugueses precisam mesmo de ser espicaçados. Em abono da verdade, eu próprio tenho dado o meu contributo em textos, múltiplas conferências e recentemente com o lançamento de um novo tipo de escola, a noschool.


A partir desta experiência, algumas coisas vão contudo ficando claras. A passagem de uma pessoa passiva para uma pessoa ativa não se faz com simples palavras. Do mesmo modo, nas empresas, não é com meros exercícios de grupo e discursos empolgantes que se cria inovação. São necessários contextos de mudança. E mudança radical. Porque as dificuldades são reais. Desde logo, a mecânica da inovação não é linear. A verdadeira inovação não é evolutiva, mas radical. Disruptiva portanto, como agora se diz. Ou seja, exige alterações importantes nos comportamentos, individuais e empresariais. A maioria não está disposta a empreendê-los.


Mas o maior problema, quando falamos da necessidade de inovar, prende-se com a geometria. Veja-se o conceito "pensar fora da caixa". Fora quanto? Pouco, muito? A observação mostra que muitas das ideias que se pretendem fora de uma caixa mental pertencem afinal a uma outra caixa. Na melhor das hipóteses estamos perante pequenos avanços evolutivos sem grande significado.


Por estes dias, através da visita de dois amigos holandeses, tomei conhecimento de um projeto realmente fora da caixa. A Holanda, países baixos "et pour cause", não tem montanhas. Recentemente, um jornalista, propôs a criação de uma montanha artificial. Os holandeses, conhecidos pela sua capacidade de conquistar terra na horizontal, poderiam talvez imaginar fazê-lo na vertical. Então, aquilo que não passou de uma piada, tornou-se num debate nacional. Muita gente achou a ideia tão boa que depressa algumas empresas começaram a desenvolver estudos de viabilidade. A coisa atinge proporções extraordinárias, com gabinetes de engenheiros, arquitetos, designers e curiosos a criarem as suas fantasias. E já existem números. Dois quilómetros de altura e um custo estimado de 200 mil milhões de euros. Mas com sucesso garantido. Serviria de motor da economia nesta fase recessiva, criaria muitos empregos e emergiria um importante cluster de turismo, nomeadamente no setor dos desportos e lazer da neve.


A propósito, ao jantar, coloquei a hipótese de Portugal vender a Serra da Estrela, que tem a altura adequada e, dada a maré de saldos, até poderia ter um preço convidativo.


Piadas à parte, após uma década a debatermos empreendedorismo, inovação e pensamento fora da caixa, esta é certamente a altura para se radicalizar a temática. Mais do que pequenas inovações, o país, as empresas e os indivíduos precisam de desenvolver ideias fortes, radicais e disruptivas. Não basta pensar fora da caixa. É preciso superar a própria ideia de caixa.

 

 

Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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