Leonel Moura
Leonel Moura 16 de março de 2017 às 20:25

Populismo

A banalização da palavra populismo dificulta o entendimento daquilo que se está a passar no mundo ocidental. Porque se populismo é dizer o que o povo quer ouvir então a própria democracia é populista. Ou não devem os eleitos representar aquilo que o povo pensa?

Na verdade, populismo designa sobretudo a extrema-direita nacionalista, racista, xenófoba e, acima de tudo, hostil ao projeto europeu. Uma extrema-direita que vai conseguindo apoio significativo, não tanto pelas ideias nazis e fascistas, mas porque aborda um problema sério que tanto a esquerda como a direita moderada têm escondido durante décadas.

 

A Europa evoluiu ao longo dos séculos no sentido da liberdade. Fazendo sobretudo duas coisas decisivas. Afastando a Igreja do poder político e assumindo a responsabilidade de educar os jovens. É o laicismo que garante a liberdade dos cidadãos. É a escola pública que liberta as crianças da submissão religiosa. Porque, como a história demonstra, a religião, mesmo a dita moderada, tende a pretender converter todos. A bem ou a mal.

 

Não menos importante, na caminhada civilizacional do ocidente, foi a libertação da mulher. Subjugadas pelos homens e pelas leis feitas à medida para a sua discriminação, as mulheres tiveram de lutar arduamente até conseguiram um estatuto que embora ainda não seja de igualdade de tratamento e oportunidades, para lá caminha.

 

Quando, no pós-guerra, por necessidade de mão-de-obra e também por descolonização, a Europa começou a receber milhares e milhares de emigrantes do norte de África nasceu a ideia de que a mistura das culturas era positiva. E é. O multiculturalismo está certo e o melhor do nosso mundo deve muito à combinação de diferenças.

 

Sucede que muitas dessas vagas emigrantes têm comportamentos que pouco devem à cultura e tudo à religião. No mundo muçulmano não existe separação entre estado e religião e, como se sabe, a discriminação das mulheres é um facto, conhecido e bem visível.

 

Esses comportamentos chocam muitos europeus. A tolerância das nossas sociedades tem dificuldade em lidar com a intolerância. Como pode uma mulher europeia, livre, encarar esses seres quase fantasmagóricos, tapados por véus e preconceitos, que circulam nas mesmas ruas? Porque a questão não é de moda. O traje muçulmano das mulheres não é a expressão de uma tendência cultural, do género dos piercings ou dos cabelos em pé dos punks. Esse traje é um preceito religioso que significa total submissão a uma crença e ao marido. O véu é um símbolo de ostentação religiosa. Se, e muito bem, se proíbem cruxifixos nas escolas, como pode permitir-se na sala de aula uma rapariga com véu? Ou uma professora?

 

Como é que a Europa cedeu a um tal retrocesso? Como é que a Europa laica aceitou a proliferação de tantas mesquitas onde se ensina a odiar a liberdade e, são, como se sabe, um berço do terrorismo islâmico?

 

A esquerda tem muita culpa. Confundiu o multiculturalismo com a cedência à intolerância religiosa, à repressão das liberdades individuais, sociais e de género. Por isso, no norte da Europa, onde esta realidade está mais presente, a esquerda está a pagar caro o erro. Na Holanda, por exemplo, desapareceu do mapa.

 

Pelo contrário, o primeiro-ministro holandês, de centro direita, venceu as eleições porque enfrentou o fascismo turco. Terá sido, à sua maneira, populista. Mas na verdade correspondeu simplesmente ao que muitos holandeses, democratas, livres e tolerantes, estão à espera dos seus políticos. Que façam frente à barbárie.

 

Artista Plástico

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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