Leonel Moura
Leonel Moura 08 de julho de 2013 às 00:01

A fantochada

A irrelevância do Presidente da República também não deve espantar ninguém. É assim mesmo. Belém é uma casa de férias. Um retiro da reforma. Onde se quer sossego e sopas

O governo morreu. Toda a gente o entendeu menos os defuntos. Os três defuntos, entenda-se, PSD, CDS e Presidente da República. O deplorável episódio não assinala contudo só o fim de um governo. Assistimos, na TV, ao declínio do regime que começou no 25 de Abril, contra, recorde-se, o apodrecimento do fascismo. Ao fim de quatro décadas esse regime libertador já está também ele em franco apodrecimento. Trata-se de um fracasso grave. Um fracasso da democracia. Imperdoável sob todos os aspetos.


Com estas e outras, a generalidade dos portugueses deixou de acreditar no sistema partidário, detesta os políticos, despreza o Presidente da República. As grandes empresas, os bancos e, em geral, os ricos são vistos como bandos de malfeitores. Os próprios media vão perdendo credibilidade, o seu capital mais importante, devido a muita cumplicidade com interesses partidários.

Batemos no fundo. As trapalhadas da coligação têm pouca relevância. Já estamos habituados. A infantilidade, a incompetência e a desorganização são a marca dos governos PSD/CDS. Não é de agora. Foi sempre assim. O PSD tem aliás um particular talento para desbaratar o poder que lhe tomba nas mãos. Fazem tudo para o conquistar. O legítimo e o ilegítimo. Mas depois não resistem ao ambiente insalubre em que vegetam. Há quem imagine que fazer política é lixar o próximo. E desde logo os muito próximos.

As traições de Portas também são triviais. Só os débeis e os ingénuos acreditam no que ele diz e faz. Não é de agora. Foi sempre assim. Um intriguista com jeito para o teatro. Não é pessoa merecedora de confiança. Nunca o foi.

A irrelevância do Presidente da República também não deve espantar ninguém. É assim mesmo. Belém é uma casa de férias. Um retiro da reforma. Onde se quer sossego e sopas. Cavaco nunca fará nada de significativo por si mesmo. Só empurrado. E com muita força.

Sobra a carta de Vítor Gaspar. A única coisa realmente grave revelada nestes últimos dias. Dois anos após ter desbaratado milhares de vidas, reduzido o país à miséria e estagnado a economia, o autor da operação vem dizer que se enganou. Reconhecendo que a sua política estava a dar resultados opostos ao esperado. Ou seja, confessa que os portugueses foram cobaias de uma experiência que correu mal. Este ex-ministro devia ser julgado.

Enfim, o governo de Passos Coelho morreu de vez. Quem imagine que ainda vai a tempo de recuperar alguma coisa dos destroços está profundamente enganado. A ideia de que é preciso manter este governo para garantir a estabilidade é, no mínimo, hilariante. É que a instabilidade tem nomes e rostos, chamam-se Passos Coelho, Paulo Portas e Cavaco Silva.

As consequências também são óbvias. Eleições antecipadas, mais tarde ou mais cedo, com hecatombe eleitoral do PSD, descida do CDS, vitória do PS, sem maioria absoluta, subida no PC e no Bloco. Muito provavelmente assistiremos ao aparecimento de dois novos partidos. Um à esquerda do PS mas capaz de dialogar com este; outro à direita para recolher os despojos do PSD.

No campo da "assistência", teremos exigências absurdas da Troika, numa espécie de castigo aos portugueses, à mistura com ameaças de que não emprestam mais dinheiro. Subida das taxas de juro; aproveitamento dos bancos para subtraírem mais fundos ao erário público com o argumento do risco sistémico. Como se esse risco não resultasse da forma como operam no mercado. Subida oportunista de preços.

Provável também é uma mudança no discurso do PS a partir do momento em que se marquem eleições. Bastante aguerrido nos últimos tempos tenderá a tornar-se manso. Para garantir o voto do centro e uma eventual coligação futura com o CDS. Teremos assim um Seguro coerente, e ainda menos atraente. Cauteloso, conciliador, insonso.

Definitivamente, os portugueses não têm sorte. Mas também, verdade seja dita, a responsabilidade é dos próprios. Más escolhas eleitorais, baixo nível dos que seguem uma carreira política, facilitismo, pouco sentido da responsabilidade, incultura geral. A má sorte é outro nome para o atraso.

Artista Plástico

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Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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