Leonel Moura
Leonel Moura 14 de dezembro de 2015 às 00:01

A próxima escaramuça

Pode apontar-se muitos defeitos ao sistema democrático mas há que reconhecer que pelo menos é bastante animado. Acabados de sair de uma atribulada eleição para o parlamento eis que estamos de novo em plena campanha agora para as presidenciais.

É certo que tem sido um exercício mole, o desinteresse é geral, a mobilização inexistente. Mas eleição é eleição e nunca falta assunto.

 

Aparentemente, como é habitual, a direita apresenta-se com um único candidato enquanto a esquerda se desdobra em muitos. Mas as aparências iludem. Na realidade é ao contrário. A direita tem vários candidatos e a esquerda só tem um. Marcelo Rebelo de Sousa, Maria de Belém e Henrique Neto são claramente candidatos do campo da direita, enquanto Sampaio da Nóvoa é o único à esquerda pois Marisa Matias e Edgar Silva servem a propaganda dos respetivos partidos, mas não vão a jogo. Postas as coisas desta maneira só temos dois candidatos com possibilidades: Marcelo Rebelo de Sousa e Sampaio da Nóvoa. O resto é paisagem.

 

Uma paisagem que prejudica Marcelo mesmo se tido por todos como favorito. Tem, contra si, o desagrado dos próprios dirigentes do PSD e CDS, mas ainda pior, arrisca uma provável dispersão de muitos dos indispensáveis votos ao centro para Maria de Belém. Nesse caso, como a matemática deixa claro, se não ganhar à primeira já não ganha. A esquerda é maioritária em Portugal. Por uma margem tão expressiva que permite alguns trânsfugas. Daí que Marcelo ande a fazer uma campanha virada para a esquerda, não se coibindo de dizer mal de Cavaco Silva, do seu partido e do anterior governo. É muito esperteza, mas pode não bastar.

 

Marcelo tem contudo uma enorme vantagem que não pode ser depreciada. É o único candidato com carisma. Décadas de treino à frente das câmaras de televisão, a que acresce a genética e a genica, dão-lhe um à vontade, uma displicência, uma rapidez de reação, e até uma boa disposição e humor, que falta a todos os outros. Sampaio da Nóvoa é uma excelente pessoa mas infelizmente exibe o carisma de um típico professor universitário. Chato, catedrático, redundante. Tem feito um enorme esforço de humildade mas estas coisas não se mudam de um dia para o outro nem se compram na farmácia.

 

Outro aspeto que não tem favorecido a campanha prende-se com a substância. Os candidatos têm frequentemente assumido a condição de comentadores da política corrente, incluindo muita politiquice, e não de aspirantes à Presidência da República. Todos, sem exceção, vieram declarar o que fazem ao governo de Costa, se o demitem, se marcam eleições antecipadas, se, se, se. Não é próprio de alguém que quer realmente ser Presidente envolver-se a esse nível. A separação de poderes e de missão devia ser clara e bem definida. Mas não é. Se em campanha os candidatos começam já a ingerir-se nos assuntos do parlamento, imagine-se o que será no dia em que se sentarem em Belém.

 

E aqui temos o outro motivo porque tantos portugueses se estão marimbando (desculpem o francês) para estas eleições. Para que serve realmente o Presidente? À falta de melhor fala-se em magistratura de influência. Mas o que quer isso dizer? Influência tem toda a gente e quanto maior é o protagonismo mediático, económico, social e político maior a influência. Marcelo terá maior influência em Belém daquela que tinha todos os Domingos na televisão? Ou será que o conceito significa na verdade um mero contrapoder?

 

É normal que os outros candidatos falem de tudo e ainda mais da política corrente. Mas a Marcelo Rebelo de Sousa e Sampaio da Nóvoa exigia-se uma muito maior atenção e detalhe sobre o que consideram ser a função presidencial já que ela é tão vaga. Só que, bem vistas as coisas, isto não interessa a nenhum deles nem, em rigor, a ninguém. Tudo se resume a mais uma escaramuça entre direita e esquerda. Com a direita a dizer que se temos um governo esquerdista é preciso um Presidente que o trave e a esquerda a avisar que é preciso eleger Sampaio da Nóvoa para não deitar tudo a perder. É pouco. Não admira o desinteresse geral.

 

Pelo menos nos Estados Unidos as eleições estão mais divertidas. Até têm um troglodita a concurso.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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