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A sociedade sem trabalho

O desemprego tem aumentado brutalmente devido à austeridade. Mas é um erro imaginar que se trata de uma situação conjuntural.

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O desemprego tem aumentado brutalmente devido à austeridade. Mas é um erro imaginar que se trata de uma situação conjuntural. Está em curso uma mudança de paradigma civilizacional. Estamos a passar de uma sociedade organizada em torno do trabalho para uma onde o trabalho humano se vai tornando pouco relevante.


Números. Dez milhões e seiscentos mil habitantes, população ativa de cinco milhões e meio, quatro milhões com trabalho a tempo completo, dos quais setecentos mil na administração pública. Ou seja, seis milhões e seiscentos mil portugueses vivem de expedientes, dependências, ocupações de subsistência e uns poucos, afortunados, de capital e rendas. Um dado importante. A separação sexual é agora reduzida, ainda que as mulheres ganhem menos e tenham trabalhos precários e menos qualificados. Outro dado. Três milhões e meio de reformados.


Chegámos aqui em resultado da tacanhez das elites e sua resistência às principais mudanças sociais dos últimos séculos. Dado relevante. A passagem da agricultura para a indústria foi penosa e nunca realmente significativa. Cinquenta anos de fascismo também não ajudaram.


Hoje, perante a nova mudança de paradigma civilizacional, continuamos incapazes de pensar o futuro. O debate, político e social, passa ao lado das questões determinantes. Por exemplo. Imaginar que a retoma económica poderá resolver o problema do desemprego é pura ilusão. Os desocupados de hoje irão continuar nessa situação e muitos outros irão fazer-lhes companhia. Poderão existir variações, avanços e recuos, mas o processo é irreversível. Porque só parcialmente é determinado pela situação portuguesa e deriva de uma evolução histórica global que caminha para a desvalorização do humano no processo produtivo.


A alta produtividade já não se atinge por via de grandes massas de operários ocupados em tarefas mecânicas ao serviço de cadeias de montagem e pesadas engrenagens. A produtividade é agora o domínio de softwares, computadores e um grau crescente de autonomia das próprias máquinas. Mesmo nos serviços, as máquinas vão substituindo com vantagem os humanos. Daí que estejamos a assistir a uma substituição que retira a componente humana do processo produtivo. Sendo que o essencial do trabalho humano se dedica agora ao desenho e não à fabricação. Só este facto bastaria para justificar o crescente desemprego nas sociedades mais desenvolvidas. Na Europa são mais de 18 milhões. Noutras, que beneficiam da deslocalização quando o trabalho braçal ainda é necessário, é uma questão de tempo. O desenvolvimento em breve trará também o modelo de produção que dispensa a intervenção direta do homem. A China, por exemplo, já começa a sentir este efeito.

 

A nova economia não precisa de muitas pessoas. Precisa de poucas com uma elevada capacitação tecnológica e alguma criatividade. Veja-se o caso das empresas mais poderosas da atualidade, googles, facebooks e afins, assim como o diminuto número de trabalhadores na área financeira por oposto ao impacto que esta atividade tem na economia e na vida de todos.


Temos assim uma sociedade cada vez mais produtiva, geradora de muita riqueza, mas cada vez menos necessitada de distribuir esses rendimentos pela massa trabalhadora. Aliás, basta pensar no nosso caso. A atividade produtiva diminuiu drasticamente, milhões de portugueses foram atirados para a miséria, mas isso não teve grande influência nos lucros das grandes empresas ou nas fortunas pessoais. O negócio é outro.


Em suma, o trabalho, que foi o motor do velho capitalismo, está claramente a perder relevância. Estamos a meio do processo de mudança de paradigma. A multidão de desocupados, muitos deles sem qualquer rendimento, tenderá a crescer tornando cada vez difícil manter a estabilidade social. A criação de rendimentos mínimos e assistencialismo do estado são soluções pontuais que já hoje começam a tornar-se insustentáveis. Precisamos de um novo modelo de sociedade que redefina o papel do humano no contexto de uma produção cada vez mais automatizada.

 

Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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