Leonel Moura
Leonel Moura 27 de maio de 2016 às 00:01

A estratégia de Marcelo

Depois do sombrio Cavaco temos o exuberante Marcelo. De um Presidente que aparecia pouco e dizia ainda menos, temos agora um que está em todo o lado e não para de falar.

Na verdade este "fenómeno" não é tão estranho assim. Os portugueses são genericamente digitais, 0 ou 1, sem nada pelo meio. Ou, dito à antiga, 8 ou 80.

 

No final do mandato toda a gente estava farta de Cavaco. Vamos ver quanto tempo se aguenta o frenesim de Marcelo. Porque a proximidade e o afeto também têm os seus problemas.

 

Haverá um momento em que a informação prestada por Marcelo passa a ruído e o dedo do espectador tenderá a mudar de canal. É dos livros, quanto mais se fala mais asneiras se dizem. E mais contradições vão emergindo aqui e ali. No tempo em que tudo se regista em breve teremos horas e horas de declarações, quantas delas contraditórias.

 

Ainda não chegámos lá. Mas já é evidente que Marcelo não conseguiu deixar a sua costela de comentador político. A maioria dos apontamentos de circunstância, em alguém que adora ser apanhado pelas câmaras da TV, são comentários. Muitas das vezes sobre a própria função do Presidente. Como se Marcelo ainda andasse a pensar no seu próprio papel. Dando lições a si mesmo.

 

Muitos destes comentários são inócuos. Não têm qualquer utilidade prática. Dizer que o Presidente está a estudar o assunto pode sossegar alguns manifestantes ocasionais, mas não significa rigorosamente nada.

 

Até há pouco tínhamos Marcelo uma vez por semana, ao Domingo. Dando conselhos, fazendo alguma intriga. Agora temos Marcelo todos os dias e mesmo várias vezes ao dia, a comentar tudo e mais alguma coisa, futebol, ginástica, artesanato, educação, enchidos e naturalmente também política.

 

Como não podia deixar de ser é precisamente a política que na verdade ocupa a mente de um político sénior que atravessou regimes, ideologias, gerações e séculos. Durante a campanha tive oportunidade de escrever aqui o que me parecia ser a estratégia de Marcelo Rebelo de Sousa se ganhasse as eleições. Ganhou e confirma-se. Num primeiro tempo dedica-se a afastar Passos Coelho do PSD. Porque não gosta dele, mas sobretudo porque se colocou demasiado à direita. Para além de ser bastante teimoso e, diga-se, pouco inteligente. Marcelo prefere um PSD realmente social-democrata, não só no nome. Um PSD ao centro com uma forte componente social e não este partido que acintosamente se coloca contra os portugueses em nome de uma receita de empobrecimento geral. Marcelo quer um PSD patriota e não o atual que tanta vez está do outro lado da fronteira.

 

Muitos dos seus comentários, mesmo os mais triviais, têm vindo a minar a margem de manobra e a credibilidade de Passos Coelho. Quando este diz que tudo vai correr mal ao governo, Marcelo aparece a dizer que vai correr bem. Ninguém resiste a isto. As sondagens já o demonstram.

 

A esquerda, que se tem portado muito acima das expetativas, tem dado o seu contributo. Como agora se diz, a geringonça funciona. Mas a queda do PSD deve-se sobretudo à persistência do Presidente. Bem vistas as coisas Passos Coelho só se aguenta porque ninguém está disposto a entrar neste momento no barco. Talvez depois das autárquicas.

 

De qualquer modo a esquerda que não se iluda. No dia em que o PSD mudar, a gosto do Presidente, este também mudará. Porque o seu objetivo estratégico, claro como água, é derrubar António Costa e recuperar, com um PS enfraquecido, o Bloco Central, única forma que Marcelo imagina ser possível o país progredir.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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