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A moda do futuro

Sempre me pareceu que a moda, a das roupas, se encontra no mais baixo patamar da criatividade artística. Desde logo porque se excede em pequenos efeitos superficiais e lhe falta um mínimo de discernimento crítico, já para não falar da mais vaga das visões

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De tal forma isto é assim que qualquer pessoa se ri da moda de há meia dúzia de anos, tal a coisa nos parece ridícula e inapresentável. Ao contrário do que acontece com a pintura, a arquitectura, o cinema ou a literatura que, quando de qualidade, apesar da passagem do tempo mantêm a novidade, a qualidade e a frescura.

A moda é definitivamente uma arte conjuntural e menor. Que se vai construindo de falsas inovações e muito malabarismo ignaro. Ainda recentemente uma conhecida estilista dizia que a sua nova colecção se inspirava nas formas dos anos setenta a que juntou as cores dos anos oitenta. É realmente de génio?

O sucesso da coisa deve-se ao facto de alimentar toda uma indústria, desde a confecção, lojas, modelos, mundaneidade, passando por uma impressionante máquina mediática que se multiplica em publicações, televisão e secções especializadas, com muita futilidade à mistura aproveitando a crescente efeminização e imbecilização das sociedades ditas desenvolvidas. Mecanismo que Gabriel Tarde, um imerecidamente desconhecido pioneiro da sociologia dos inícios do século XX, tão bem explicou com as suas leis da imitação e a tendência que a nossa sociedade mostra para a uniformização e a banalização.

No concreto, mais adereço menos adereço, mais pano aqui ou acolá, a moda é no essencial sempre a mesma, para o que basta pensar na gravata para os homens, uma invenção do século XVII, ou o vestido para as mulheres. Acessórios absolutamente impraticáveis do ponto de vista funcional, e a que não há padrão, largura ou altura que possa significar qualquer contributo estético significativo.

A falta de imaginação no mundo da moda é tal que afecta mesmo os produtos mais futuristas e de que os filmes de ficção científica são um paradigma. Na maioria das vezes opta-se por um regresso ao passado, apresentando-se os muito avançados habitantes de um sistema solar e era tremendamente distantes, vestidos com ridículas túnicas a imitar a Grécia antiga. Outras vezes acrescenta-se plástico, metal e muito brilho a uma indumentária banal, a que nunca faltam alguns tubos que ninguém sabem para que servem. Ultimamente e graças aos efeitos especiais estes tubos deitam fumo.

A banalidade da moda reside num evidente atraso conceptual. A arte percebeu, há mais de cem anos, que a questão da criatividade não está na forma, mas no processo ou no meio. O que importa não é tanto usar os meios ao nosso dispor para criar novas formas, mas sim criar novos meios. É essa a natureza da verdadeira criatividade moderna.

Assim a nova moda, que aliás começa a emergir nas universidades e centros de investigação, irá concentrar-se menos nas formas e mais nos conteúdos. Desde logo ao nível dos tecidos, capazes de nos proteger melhor do frio e do calor, para além de apresentarem uma muito maior durabilidade e robustez. Novos materiais implicarão novos usos e uma nova relação com as roupas.

Mas é na integração com as novas tecnologias da informação que a moda do futuro se apresenta mais promissora. Já hoje, ainda com carácter experimental, começamos a ver roupa capaz de realizar muitas outras funções úteis para além da simples cobertura do corpo. Roupa que é simultaneamente um computador, um telemóvel ou uma câmara vídeo, roupa capaz de medir a tensão arterial ou realizar outros testes de saúde, roupa que expande capacidades, como ajudar a visão, a audição ou deslocação de deficientes, etc. A roupa, já de si uma pele artificial por cima da pele natural, é o meio ideal para aprofundar esse processo de ampliação que a tecnologia, em si mesma, sempre realiza. Mais do que cobrir, a moda do futuro irá expandir o nosso corpo.

Assim, à trivialidade do corte e costura irá suceder um movimento de efectiva renovação tecnológica da nossa, tão triste e anacrónica, indumentária. Por cá, onde tanto se fala de choque tecnológico, a par da crise dos têxteis e do medo dos chineses, há todo um mundo de oportunidades neste domínio. Mas o problema dos países atrasados é que lhes falta, mais do que tudo, capacidade de perceber para onde vão as coisas.

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