Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião

A surpresa

O previsível sucedeu. Sem maioria absoluta, a coligação ganhou uma mão cheia de nada. Passos e Portas continuam a falar como se nada tivesse sucedido, mas o cenário mudou. E radicalmente. A esquerda domina agora o parlamento.

  • Assine já 1€/1 mês
  • 9
  • ...

Podem os dois partidos fazer alianças, assinar papéis, mas provavelmente nem conseguem formar governo e se o conseguirem, é à conta do PS. O povo português votou a rejeição das suas políticas. É chato para muita gente, mas a direita já era. Só será o que Costa permitir.

 

Um tal governo, da coligação com abstenção socialista, teria aliás uma vida horrível. Desde logo, a continuação da política de austeridade que tanto apreciam seria impraticável. Não vão existir mais cortes, aumento de impostos, privatizações. A esquerda não deixa. Por seu lado, esta irá aprovar um conjunto de leis que desagradam em absoluto à direita e lhe estragam o excel.  Já se preparam. A começar, logo nos primeiros dias, pela revogação da lei do aborto. Por uma questão simbólica, mas também para que fique bem claro quem manda no parlamento a partir de agora. Em muitas outras matérias existe consenso à esquerda. O IVA da restauração. O aumento do salário mínimo. E por aí adiante.

 

Neste cenário teríamos um governo bloqueado. Obrigado a aplicar as leis que PC, Bloco e PS ditariam. Não conseguindo fazer nada porque a nova troika não deixaria. E digo teríamos porque está já em marcha um intenso e agressivo movimento de pressão sobre o PS para o levar a fazer o que não deve. Direita, comentadores, empresários, a própria Europa, todos querem vergar Costa. E sobretudo este Presidente da República, que nunca tendo sido isento, decidiu, neste contexto, não falar com ninguém e dar posse a um moribundo político.

 

A ideia é tão clara que fere os olhos. Trata-se de obrigar Costa a assinar um pacto de regime com a coligação. Deixando a dupla Passos/Portas prosseguir no essencial as mesmas políticas, com um pequeno ajuste irrelevante aqui e ali. Conhecendo-se o PS, tudo é possível. Mesmo o suicídio. Conhecendo-se Costa, parece improvável.

 

Tanto mais que neste momento em que escrevo, e para minha surpresa devo confessar, as improváveis negociações começaram. E bem. O PC, o mais difícil, mostra-se disponível para um entendimento com o PS. Incluindo uma participação a nível do governo. O Bloco não pode deixar de seguir nesta mesma onda. Ninguém compreenderia o contrário.

 

Mesmo assim é duvidoso que um governo da esquerda multifacetada possa acontecer mas, tal como disse Jerónimo de Sousa, numa ainda mais surpreendente declaração, Costa só não será primeiro-ministro se não quiser.

 

Não tenhamos ilusões, os obstáculos são muitos. Décadas de desconfiança mútua, expressa nessa ideia intolerável em democracia do arco da governação, vão dificultar qualquer acordo. Para mais, no próprio PS alguma gente já afia facas. A começar pelo canivete de Maria de Belém. Ou o minúsculo bisturi do Dr. Beleza. Um "nobody" que não mata, mas faz feridas e obriga a um consumo exagerado de pensos. O golpe fatal está, no entanto, reservado a Francisco Assis. Preferido pela direita, predisposto para o bloco central, espera tomar conta do PS quando achar que chegou o seu momento. Provavelmente, se não estiver muito apressado, talvez após a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa.

 

De qualquer modo, estas conversas entre PS e a restante esquerda são uma absoluta novidade no nosso panorama político. Nunca aconteceu. Mas um dia têm de dar resultado ou definitivamente os partidos mais à esquerda demonstram que não servem mesmo para nada.

 

Não é que a esquerda seja mais eficiente do que a direita. Muitas vezes é mesmo mais incompetente ou desajeitada, mas tem uma grande vantagem para o cidadão. Interessa-se pelo bem comum e não pelo bem-estar dos credores, dos ricos e poderosos. E é realmente uma grande diferença. A começar pelo singelo facto de que os pobres e remediados, vulgo classe média, são a grande maioria. E também quem tudo produz na nossa sociedade.

 

Vamos, portanto, ver no que isto dá. Mas o ambiente mudou e há muita gente que ainda não o percebeu.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias