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Leonel Moura leonel.moura@mail.telepac.pt 29 de Março de 2006 às 13:59

Abertura ao mundo

Passada a fase das medidas internas que no fundo mais não fazem do que trazer o Portugal antiquado, incompetente e desorganizado para a actualidade, gostaria de assistir a um processo de verdadeira internacionalização do país.

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Uma observação desapaixonada da realidade política actual não pode deixar de registar que este governo tem sido uma boa surpresa. Tem feito mais do que seria de esperar e não tem gerado a confusão e a catadupa de asneiras a que nos habituámos nos governos anteriores, incluindo os de Guterres.

Em particular conseguiu criar a ideia de que finalmente «se estão a fazer coisas» e, acima de tudo, que elas não são avulsas mas antes se enquadram numa perspectiva geral a médio e longo prazo. A própria reacção negativa das oposições, corporações e tantos interesses instalados só acrescentam maior credibilidade às iniciativas do governo.

Tanto mais que algumas medidas representam um benefício claro para as populações. Pela sua efectiva utilidade prática, desburocratização, acessibilidade, ganhos de tempo, simplificação de processos, e pelo que revelam de uma atitude de maior consideração para com o cidadão, o utente e o consumidor. Também aqui algumas incompreensões e resistências mais do que configurarem críticas legítimas, denotam conservadorismo e vontade de manter velhos e obsoletos hábitos. Que o PC diga que há mais vida para além da desburocratização só revela bastante incoerência num partido que se diz defensor das populações, pois a burocracia é uma das nossas maiores chagas sociais, cujos malefícios atingem mais fortemente os pobres do que os ricos que sempre têm recursos para a contornar.

Num mesmo plano dizer que tanta medida anunciada não passa de propaganda nada adianta ao criticismo político e denota mesmo alguma debilidade conceptual, já que a componente comunicação é, neste tempo da informação, absolutamente essencial para que qualquer acção possa ter o mínimo de sucesso.

O governo tem pois cumprido bem o seu papel e, para já, conseguiu reduzir a oposição partidária àquele estado lastimoso e desorientado em que sempre se fica quando se perde o poder. Os recentes episódios entre o triste e o caricato, protagonizados pelo PSD e pelo CDS são disso bem reveladores. E continuarão.

Estamos portanto perante uma oportunidade que deve ser agarrada. O governo tem insistido, e bem, na questão da tecnologia e da inovação. Conseguiu mesmo criar um efeito de hegemonia com tais ideias, já que não há ninguém, nem nenhum movimento de opinião que se oponha à necessidade de um sobressalto tecnológico, salvo alguns fadistas desnorteados e uns quantos defensores do mundo rural que vivem em Lisboa. Contudo não basta afirmar necessidades. Por razões que se prendem com o conservadorismo da nossa sociedade, a sua estrutura económica totalmente dependente do estado e também a degradação dos conteúdos televisivos, o país tem-se vindo a fechar ao mundo. Basta ver o alinhamento dos telejornais. Ou o número crescente de manifestações de carácter nacionalista, regionalista e paroquial, a que nunca falta o apelo a tradições que não existem ou deviam envergonhar. Que os estudantes universitários de norte a sul do país se vistam como palhaços, inventando passados e brazões, e comportando-se como imbecis eis uma das consequências deploráveis da falta de mundo em Portugal.

Ora nenhuma verdadeira inovação é hoje possível sem uma forte interacção multicultural e sem um efectivo cosmopolitismo. A este propósito sempre achei muito interessante a ficha técnica do banal programa gráfico Photoshop pois aí encontramos, pelos nomes, pelo menos uma dezena de origens, desde americanos ou ingleses, indianos, latinos, chineses, alemães ou austríacos e até um português mas mais provavelmente um brasileiro. O mundo da inovação é assim. Partilhado, múltiplo, sem fronteiras ou identidades fixas.

Passada a fase das medidas internas que no fundo mais não fazem do que trazer o Portugal antiquado, incompetente e desorganizado para a actualidade, gostaria de assistir a um processo de verdadeira internacionalização do país. Não na perspectiva de um maior conhecimento do que se passa «lá fora», já que hoje não existe fora nem dentro e finalmente começamos a viver todos no mesmo planeta e assistir por toda a parte aos mesmos eventos e partilhar por todo o lado as mesmas ideias, mas num muito maior nível de contaminação global. Julgo que existe uma realidade que ainda não foi compreendida pela maioria dos portugueses. Hoje um aluno de uma univesidade nas Beiras e um professor do MIT trabalham com o mesmo computador e as mesmas ferramentas conceptuais e informáticas. A única coisa que os distingue é a capacidade de perceber para onde vai o mundo e agir em conformidade.

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