Leonel Moura
Leonel Moura 06 de abril de 2017 às 20:30

Bye Bye

Este é o último texto que escrevo nesta coluna de opinião. É a vida. E ainda mais a vida dos jornais que atravessam dificuldade em se adaptarem à nova realidade tecnológica.

Ao contrário do que alguns dizem, os jornais, tal como os conhecemos, são objetos em vias de extinção. Não se vendem, não encontraram novos meios de financiamento e não conseguem competir com o online.

 

Quando Sérgio Figueiredo me convidou para escrever aqui, penso que em 2002 ou 2003, esperava certamente, sendo eu artista, textos sobre arte. Raramente o fiz. Nunca quis confundir a minha opinião com a promoção do meu trabalho. Também porque não sou crítico de arte ainda que seja muito crítico da chamada arte contemporânea que, no meu entender, tem pouco de contemporâneo. Por isso, tentei fazer semanalmente o exercício da verdadeira opinião. Ou seja, dizer o que penso sobre os mais variados assuntos sem olhar a amigos, interesses particulares ou estratégias partidárias. Não é fácil. Porque se a opinião anda muito formatada, a leitura da mesma também. Constatei, aliás, ao longo desta prática continuada que muitos leitores não sabem ler ou, pelo menos, só leem aquilo que agrada ao seu quadro mental. Pensar diferente tem fraca audiência. E, no entanto, é o que mais falta faz. Neste mundo de avassaladora informação a opinião distinta é aquilo que mais pode contribuir para gerar alguma ordem no fundo caótico.

 

Pelo contrário, assistimos a um afunilamento do pensamento. Os jornais vão-se tornando todos similares, emitindo as mesmíssimas notícias e as repetitivas observações sobre as mesmas, com pouco ou nenhum contraditório. É essa uma das razões do seu insucesso público. É esse também um dos motivos da sua fraca prestação comercial.

 

Mas, nem é preciso encontrar outras justificações para o declínio do jornalismo. Deve-se sobretudo à mudança de paradigma na própria informação. De ponderada e culta, assente na ideia do jornalismo da verdade, independência e fiabilidade, foi aderindo a diversas formas de populismo na expressão de interesses imediatos, de singulares é certo mas, sobretudo, dos grandes grupos económicos e políticos. Os jornais tornaram-se porta-vozes e não mais fornecedores de informação objetiva.

 

Não vejo grande futuro para o jornalismo tradicional. Em tempos foi uma profissão digna e valorizada. Hoje está bastante desacreditada, tal como sucede com outros setores da sociedade, como a política ou, por exemplo, a justiça. A função da informação vai sendo preenchida por outros meios, sobretudo os eletrónicos. A maioria dos cidadãos toma agora conhecimento da realidade através de mecanismos de circulação e partilha de informação do tipo do Facebook ou do Twitter. Não por acaso o atual Presidente dos Estados Unidos, na sua guerra contra os media convencionais, usa estes novos meios. Com evidente eficácia, ainda que alucinada.

 

Acresce que estamos a entrar no tempo da inteligência artificial. Capaz de produzir notícias, falsas ou verdadeiras, mas tremendamente eficientes porque se disseminam a uma velocidade impressionante, em múltiplos suportes e por todo o lado. Já hoje uma parte importante da informação é gerada por máquinas. Amanhã, será praticamente toda. Contra isto o velho jornalismo humano não tem qualquer hipótese.

 

Resta-me agradecer a este jornal por ter permitido ao longo de tantos anos exprimir a minha opinião, a todos os que apreciaram os meus textos e, de diversas formas, o manifestaram, e naturalmente também aos que nunca gostaram.

 

Artista Plástico

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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