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Campanha mesquinha

Mais do que no país é na questão europeia que se vai confirmando uma manifesta bipolarização política. Num campo temos o Partido Socialista, declaradamente europeísta, no outro, todos os restantes partidos, competindo entre...

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Mais do que no país é na questão europeia que se vai confirmando uma manifesta bipolarização política. Num campo temos o Partido Socialista, declaradamente europeísta, no outro, todos os restantes partidos, competindo entre si na intensidade da demagogia nacionalista contra a Europa.

Que Bloco e Partido Comunista sejam contra a Europa não admira. Trata-se de uma esquerda conservadora, anti-moderna, que confunde a crítica ao capitalismo com o retrocesso civilizacional. Sendo certo que alguns dos argumentos desta esquerda são correctos, entre eles, o facto da gestão europeia ser realizada longe dos cidadãos, são afinal os primeiros a criar essa distância já que raramente falam da Europa e das suas questões para dedicarem todo o tempo ao combate político interno. É uma esquerda reactiva que só consegue olhar para trás e não tem nenhuma visão para a frente.

Que o CDS seja contra a Europa ainda espanta menos. Afinal estamos perante o partido da lavoura e dos reformados, ou seja, do eleitorado menos activo na criação de uma sociedade avançada. Uns porque a natureza do seu trabalho, a agricultura na sua versão mais antiquada, outros porque atingiram o merecido direito ao descanso, pouco podem contribuir para a dinâmica das novas ideias, dos avanços sociais e tecnológicos, enfim, da evolução do país.

Constituem por outro lado comunidades muito vulneráveis à demagogia do nós contra eles, do elogio do chouriço regional e de outras manifestações de atraso cultural em que o CDS é fértil.

Basta aliás olhar para os cartazes do candidatado do CDS à Europa para perceber que este pequeno clube de jantaristas que se apoderou do partido anda mesma a brincar à política. Que utilidade prática pode ter esta gente tão retrógrada em Bruxelas?

Mas já admira que o PSD tenha derrapado de forma tão aberrante para posições nacionalistas e anti-europa que Paulo Rangel tão bem exprime nas suas intervenções e cartazes. Um deles que diz "as famílias portuguesas, acima das famílias políticas" é todo um programa da mesquinhez nacional e partidária, já que na aparente defesa do interesse dos portugueses, se coloca implicitamente contra os restantes europeus e explicitamente contra a própria democracia. Ou não será que as famílias políticas, nas quais aliás o PSD se insere, não resultam da escolha democrática dos cidadãos, nacionais e europeus?

Para mais estes cartazes são tremendos visualmente. Depois dos horrores, primeiro a negro, depois a branco, com Manuela Ferreira Leite, os cartazes de Paulo Rangel denotam um grande amadorismo e uma chocante falta de modernidade comunicacional. Nem escapa a assinatura do próprio, coisa que os políticos, e neste caso de todos os partidos, julgam dar um ar mais íntimo e pessoal, mas na verdade é a manifestação de uma enorme falta de cultura visual.

Mas para lá dos cartazes estão as posturas políticas. O PSD que em tempos foi um actor importante no debate europeu, reduziu-se agora à condição, já muito superlotada, de ser tão-só mais um partido nacionalista, anti-Europa e anti-moderno que promove a muito prejudicial posição de colocar os portugueses contra o único espaço político, social, cultural e económico que nos pode ajudar a sair da crise e evoluir positivamente. De tanto pretender proteger os portugueses, o PSD condena-os a uma periferia que mais do que geográfica é acima de tudo mental. E também aqui cabe colocar a questão. Esta gente vai fazer o quê para Bruxelas? A julgar pelos discursos, irão juntar-se ao Bloco, PCP e CDS, que usam a arena europeia praticamente só para fazer política nacional. É pouco, é um desperdício e é bastante estúpido, diga-se de passagem. Definitivamente estes políticos pensam pequeno e agem curto.

Enfim, esta campanha mostra mais uma vez que a falta de interesse pela Europa deve tudo aos próprios partidos e agentes políticos, os quais persistem em encarar estas oportunidades como uma forma de fazer oposição ao governo e não como um momento de apresentação de ideias e soluções para uma maior participação do país na construção europeia. Para logo a seguir se queixarem do desinteresse geral. Não há paciência.
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