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Leonel Moura leonel.moura@mail.telepac.pt 23 de Dezembro de 2010 às 11:55

Coragem portugueses

O tempo está cinzento e o país está chato.

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Embora a entropia já tenha tomado conta das más notícias e a maioria das pessoas não tenha mais paciência para saber se o FMI vem ou não vem, se a taxa de juro sobe ou desce ou se a catástrofe está iminente ou nos safámos desta, nada de realmente excitante acontece. Portugal está entorpecido à espera que o tempo passe. Mais uma vez já que este é um fado recorrente.

As presidenciais também não animam. A explicação é simples. Nenhum dos candidatos é do nosso tempo. Vêm todos do passado e para lá nos puxam. Os debates são desoladores. Cavaco explica que não pode fazer nada por causa das limitações do cargo; os outros explicam o que fariam se fossem primeiros-ministros. Todos falham a eleição. O interesse é nulo, a abstenção será grande e Cavaco já ganhou, não por ser o melhor, mas por ser o menos mau.
Quanto ao resto dois comentários.

É realmente notável dizer-se que o facto de a esquerda ter quatro candidatos é muito bom. Não é. Só mostra que a esquerda não conseguiu arranjar um candidato decente. Aliás essa fragilidade está bem patente no objetivo da eleição, ou seja, conseguir uma segunda volta. Quando a política se reduz a esquemas é porque faltam as boas ideias e as boas pessoas.

Também é notável ouvir Fernando Nobre insistir que falta um grande objetivo para Portugal. Desde logo porque quando um país tem um GRANDE objetivo é melhor fugir porque vem aí uma ditadura qualquer. O mundo é plural, as vidas são plurais, os objetivos são múltiplos e diversos.
Um país, livre e democrático, tem uma multitude de objetivos que derivam da ação livre e empreendedora dos seus cidadãos. Fernando Nobre fez muita coisa louvável na vida, mas, talvez por isso, não teve tempo para pensar. A sua candidatura é, de todas, a mais confusa e anacrónica. Se tiver 5% tem lugar garantido em telejornais futuros. E vai ser uma chatice. Nessa circunstância até é possível que alguém o convença a fazer um partido. E, nesse caso, vai ser uma tragédia.

Aliás, esse é um dos dramas da vida política portuguesa. Cada vez temos mais gente com lugares cativos a perorar sobre todos os assuntos. A política local vai-se enchendo de ex. Ex-primeiros-ministros, ex-presidentes, ex-líderes partidários, ex-ministros das finanças, ex-banqueiros, ex-famosos e até ex-eternos-derrotados como Freitas do Amaral que com a frequência do anticiclone dos Açores é chamado a dar a sua opinião sobre os mais variados temas e raramente diz alguma coisa digna de registo. O seu último contributo foi sugerir mais uma comissão de inquérito sobre o caso Camarate, folhetim nacional muito ao estilo da série "Cold Case", "Casos Arquivados" em português. Com um único senão, por cá nunca se descobre nada e a papelada, cada vez mais numerosa, volta para a caixa de cartão. A propósito, no Brasil a série chama-se Arquivo Morto, o que me parece bem mais apropriado.

Recapitulando: o tempo está cinzento e o país está chato. E, no entanto, há tanta coisa em que se podia ocupar este momento de tédio. Ainda recentemente li um artigo muito interessante sobre o futuro das cidades. O autor considera que a competitividade das cidades assenta cada vez mais nas suas condições de mobilidade. Mais e novos meios de transportes são fundamentais para diminuir radicalmente a dependência do automóvel, do espaço totalitário que ocupam e da energia poluente que consomem. As cidades cresceram à volta das vias rodoviárias, dando primazia aos veículos e nunca aos cidadãos. Está na hora de mudar de paradigma. Agora que tanto se fala de renovação urbana, como contributo para a superação da crise, talvez não fosse má ideia pensar também em novas formas de circular, combinando os meios físicos e as plataformas digitais. Tanto mais que muita da economia do futuro vai também passar por aí. A mobilidade é um grande negócio, a par de grande serviço público, que está por descobrir e montar.

Enfim, a cada momento da história está tudo por fazer. Só que a maioria perde-se em discursos e lamentações, enquanto uns poucos se empenham na difícil, mas muito gratificante, tarefa da realização transformadora. É desses que fica a marca.

E como dizia Almada Negreiros, "um país é o conjunto de todos os defeitos e qualidades. Coragem portugueses pois já só vos faltam as qualidades".



Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.
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