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De outra maneira

Ninguém sabe se o Syriza vai ter sucesso. Os que sempre defenderam a austeridade acham que não; a parte da esquerda que gostava de apanhar boleia acha que sim. Mas não sendo a política, nem a economia diga-se de passagem, uma ciência exata, não se pode seriamente saber.

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De qualquer modo algumas coisas são já dignas de registo. Começo com o plano do simbólico. Parece um fait divers, mas não é. Ao não usar o traje institucional, fatinho e gravata, ou prescindir da mão na Bíblia na altura do juramento, Alexis Tsipras, primeiro-ministro da Grécia, mostra que não temos sempre de fazer as coisas da mesma e única maneira. A liberdade é mesmo para se usar.

 

No plano político há contudo outra questão, levantada pela vitória do Syriza, um pouco chata mas bastante reveladora. Quando a esquerda ganha é uma festa, quando a direita ganha é uma tristeza. E isto porque a direita assenta a sua ação política na ideia de que lhe cabe pôr ordem na sociedade. Não tanto para corrigir o que está errado, melhorar o que não está bem, mas claramente para punir, vergar, enfim, meter na ordem. Quando chega ao poder trata de castigar as pessoas. Por uma ou outra razão. Porque gastaram demais, têm liberdade a mais, são preguiçosas, vão muito ao hospital, não querem cumprir regras, etc. A direita governa sempre contra o povo, ainda que em nome de um futuro promissor que nunca chega. Daí o discurso do inevitável. Daí a resignação, a falta de esperança e a tristeza geral que se gera.

 

É claro que sabemos que este tipo de "missão", o meter o povo na ordem, não se justifica pelo seu eventual mau comportamento. Mas antes por uma visão ideológica que favorece claramente a parte mais rica da sociedade em detrimento dos mais pobres. No caso em que estamos, a direita europeia, com o nosso governo na primeira fila, considerou que é preciso atacar as dívidas públicas para salvar a banca privada. Chamou-lhe austeridade, mas podia perfeitamente chamar-lhe resgate de uma finança que perdeu totalmente o controlo da sua própria operação e sobretudo da sua razão de ser. Ver o caso BES. E outros.

 

Podia e pode pensar-se exatamente o oposto. Ou seja, atacar a banca privada para salvar a dívida pública. Com um bom argumento. É que enquanto a banca privada, ao invés de ser um motor da economia como se pretende, tem enterrado economias e países inteiros, pelo menos a dívida pública serve para garantir saúde, educação e bem-estar às populações. E, aqui, peço desculpa. Se o objetivo da vida em sociedade não é esse, então para que serve vivermos em sociedade?

 

Julgo que o Syriza vai seguir esse caminho. Taxar os ricos para melhorar um pouco a condição dos pobres. Terá naturalmente a resistência, e mais do que isso a oposição feroz, dos poderes instalados. Dos poderes económicos, que por estes dias dão pelo nome de "mercados", e dos poderes políticos que agem em seu nome. Entenda-se que, sendo objetivo e nada fanático, não penso que os seguidores destas políticas, da direita à chamada esquerda moderada, o façam por maldade ou por serviço ao grande capital como diz o PC. Muita gente acredita realmente que favorecendo os mais ricos isso conduz a uma melhoria da condição dos pobres. Não é o que a análise dos factos demonstra, mas admito que se possa pensar assim. Até porque a acumulação de riqueza não é um mal em si, pois permite desenvolver empreendimentos que beneficiam toda a sociedade. Não fosse a ganância de alguns e não teríamos tanta coisa extraordinária que melhora as nossas existências.

 

O problema está quando essa parte fundamental mas minoritária da sociedade pretende impor os seus interesses ao resto menos afortunado. Quando 1% tem uma riqueza equivalente aos restantes 99%, mais do que contribuir para um ainda maior aumento dessa brutal disparidade há que começar a equilibrar as coisas. É isso que a direita e a esquerda moderada não percebem com a desculpa de que não há alternativa. Há, tem de haver, sob pena do mundo se tornar um lugar insuportável.

 

Insisto. Não sei, nem ninguém sabe, se o Syriza vai ser bem-sucedido. Mas pelo menos mostra-se disposto a tentar outros caminhos quando é claro que aquele que tem sido seguido não está a resultar para a maioria.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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